quinta-feira, 3 de março de 2011

Um poema de Emily Dickinson

Saí cedo - Meu Cão levei comigo -
Fui visitar o Mar -
Lá do Porão saíram as Sereias
E vieram me olhar -

Da cobertura as Naus me ofereceram
A Encordoada Mão -
Tomando-me talvez por um Ratinho
Sobre a Areia - no Chão -

Mas Ninguém me tocou - até que n'água
A Maré me atingiu
Os Pés - e logo as Coxas - e a Cintura -
E o Peito me cobriu

E eu parecia prestes a afogar-me -
Qual na Flor ao cair
Uma gota de Orvalho fica presa -
E eu resolvi sair -

E Ele - Ele me seguiu com pés de prata
Ainda a me envolver
O Tornozelo - E fez meus Sapatos
De Pérolas se encher -

Até que no Chão duro da Cidade
Um Estranho se achou -
E se curvando - a me fitar Altivo -
O Mar se retirou -

Tradução José Lira

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Um poema de William Shakespeare


poema 91

Uns se orgulham do berço, ou do talento;
Outros da força física, ou dos bens;
Alguns da feia moda do momento;
Outros dos cães de caça, ou palafréns.
Cada gosto um prazer traz na acolhida,
Uma alegria de virtudes plenas;
Tais minúcias não são minha medida.
Supero a todos com uma só apenas.
Mais do que o berço o teu amor me é caro,
Mais rico que a fortuna, e a moda em uso,
Mais me apraz que os corcéis, ou cães de faro,
E tendo-te, do orgulho humano abuso.
.....O infortúnio seria apenas este:
.....Tirar de mim o bem que tu me deste.

Tradução Ivo Barroso

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ité: poema de Ezra Pound


Ide, meus versos, procurai vossos louvores entre os jovens, e os intolerantes,
Movei-vos somente entre os amantes da perfeição.
Permanecerei sempre na luz severa de Sófocles
E dela recebei vossas feridas, alegremente...

Tradução de Joaquim Cardozo
Não falarei dos poemas de Pound, mas das fotografias que dele existem. Conheço uma bela sequência que o fotógrafo Coburn fez do poeta. Esta que postei junto ao poema desconheço a autoria. Procurei saber, mas não encontrei informações. Existem ainda outras muito boas, aos poucos postarei no blog.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Paladas de Alexandria: epigramas

X. 58

Vim nu à terra e nu irei para debaixo dela.
Por que canseiras vãs se o fim é só nudez?

X. 72

Um palco, a vida, e uma comédia; ou aprendes a dançar, deixando a sisudez de lado, ou lhe aguentarás as dores


do livro Poemas da antologia grega ou palatina.
Tradução José Paulo Paes.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fim de um crepúsculo: poema de Joaquim Cardozo





Do fim desse crepúsculo a parte da noite caminha,
A parte do dia se isola em vários pontos;
Parece que a luz tem saudade do dia.
A escuridão da noite dividiu-se,
Perdeu a coesão que havia no preto de marfim.
A fragmentação desse crepúsculo,
Em que há muros de negro, o mais denso,
Onde as formas, geométricas tênebras
Entre estratificações mais suaves se entretecem.
Com lineamentos de cinzento cor de pérola.



Nesse fim de crepúsculo ainda restaram
Regiões de clara luz do dia
Que ficarão largadas para as outras eras.





Os ângulos agudos do preto de marfim
Enumeram um tecido bem distribuído.
De onde veio a noite, há terra de sombra queimada
Acompanhando a cor parda de Van Dyck;
A cor parda que ainda resta no Ocidente
E será coberta pelas escuras formas do contorno retilíneo.
Será coberta pelas formas intensas, trevosas.
E fechando esse último trecho em tinta neutra
Resulta a realidade do fim;
Do fim desse crepúsculo.





A manhã começa no Oriente com o nascer do sol.
O crepúsculo se fecha no Ocidente
E o que resta é o brilho das estrelas.


Do livro O interior da matéria.



Pensei em postar um poema mais "conhecido" de Joaquim - a bela Canção elegíaca do livro Signo Estrelado. Mas sempre que seleciono algum poema de Joaquim Cardozo para postar no blog escolho quase sempre algum poema do livro O interior da matéria. Foi o que aconteceu. Este é um livro em que os poemas olham as coisas. Fazem do invisível algo para ser visto. Dizem os traços, a altura, a largura, as cores, o movimento, luzes, sombras, pinturas. E olham para além de um olhar único, para além de um olhar estático. Ao contrário, o movimento presente em cada poema se refaz a cada leitura. O instante num eterno movimento. Desenhando.
(Jefferson Bessa)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Eternos atalaias: poema de Cruz e Souza




Os sentimentos servem de atalaias
Para guiar as multidões errantes
Que caminham tremendo, vacilantes
Pelas desertas, infinitas praias...

Abrangendo da Terra as fundas raias,
Atingindo as esferas mais distantes,
São como incensos, mirras odorantes,
Miraculosas, fúlgidas alfaias.

Tudo em que logo transfiguram,
Encantam tudo,tudo em torno apuram,
Penetram, sem cessar, por toda parte.

Alma por alma em toda a parte inflamam.
E grandes, largos, imortais, derramam
As melancólicas estrelas d'Arte!


do livro Últimos Sonetos

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011