sábado, 2 de abril de 2011

MEU CORAÇÃO AO ACASO – GEORG TRAKL


Ao entardecer se ouve o grito dos morcegos.
Dois cavalos negros saltam pelos prados.
A vermelha árvore murmura.
O viajante encontra a pousada na estrada.
Magnífico é o jovem vinho com as nozes.
Magnífico é cambalear ébrio pelo bosque crepuscular.
Através da obscura folhagem soam os sinos dolorosos
Agora sobre o rosto goteja o orvalho.

A partir da versão espanhola de Helmut Pfeiffer

terça-feira, 29 de março de 2011

NÃO POSSO OFERECER-LHE UMA ÚNICA FLOR: POEMA DE Rabindranath Tagore


Não posso oferecer-lhe uma única flor
Dentre todos os tesouros da primavera,
Nem um único raio de luz do ouro destas nuvens.
Abre a sua porta e olha
E, dentre as flores de teu jardim,
Colhe a lembrança do perfume das flores
Que há cem anos já morreram.

Oxalá possas sentir na alegria de teu coração
A alegria viva que nesta manhã de abril te envio
Atravessando cem anos e cantando sempre venturosa!

A partir da versão em espanhol feita por Zenobia Camprubi de Jiménez

sábado, 26 de março de 2011

PARA FAZER UM SONETO: poema de Carlos Pena Filho





Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.


Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.


Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.


Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

sábado, 19 de março de 2011

Baco não quer altar nem quer admiração: um poema de Salvat Monho (1749-1821)

Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.

Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
Deixemo-nos beber se o coração mandar.

Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.

Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.


Tradução: Fábio Aristimunho Vargas
Livro: Poesia Basca (das origens a guerra civil)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Canção do Amor-Perfeito: um poema de Cecília Meireles



O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.


O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.


O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.


Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.


Do livro Retrato Natural.

domingo, 6 de março de 2011

O poema VERSO-SERPENTINA de Jefferson Bessa

Pierrot - Pablo Picasso


Verso-serpentina de Jefferson Bessa

(enquanto festejam lá fora
eu aqui sentado escrevo
e sinto sentado.
quatro da manhã
depois de já dormir
penso na vaidade de um verso
que se quer registrar,
que se quer lido)

então um verso-serpentina
enrolado ao tempo breve
feito para jogar ao chão
em ondulação aérea

ouvindo
um verso claro
- que em seu curso
se evapora na dança de fazê-lo
como quem brinca
- sem fantasia,
sem co
(memoração)



Um amigo me lembrou de um poema que escrevi em 2009. Sugeriu que o postasse no blog por conta do momento de festa no país.




Agradeço e adiciono a esta postagem o poema do Rogel Samuel para Jefferson Bessa:



SEU VERSO SERPENTEIA
NA MINHA IMAGINAÇÃO
CARNAVALESCA

solta
livre
enroscada
essa serpentina
faz
meu carnaval

quinta-feira, 3 de março de 2011

Um poema de Emily Dickinson

Saí cedo - Meu Cão levei comigo -
Fui visitar o Mar -
Lá do Porão saíram as Sereias
E vieram me olhar -

Da cobertura as Naus me ofereceram
A Encordoada Mão -
Tomando-me talvez por um Ratinho
Sobre a Areia - no Chão -

Mas Ninguém me tocou - até que n'água
A Maré me atingiu
Os Pés - e logo as Coxas - e a Cintura -
E o Peito me cobriu

E eu parecia prestes a afogar-me -
Qual na Flor ao cair
Uma gota de Orvalho fica presa -
E eu resolvi sair -

E Ele - Ele me seguiu com pés de prata
Ainda a me envolver
O Tornozelo - E fez meus Sapatos
De Pérolas se encher -

Até que no Chão duro da Cidade
Um Estranho se achou -
E se curvando - a me fitar Altivo -
O Mar se retirou -

Tradução José Lira