segunda-feira, 18 de abril de 2011

O pássaro: um poema de Octavio Paz


Um silêncio de ar, luz e céu.
Em silêncio transparente
o dia repousava:
a transparência do espaço
era a transparência do silêncio.
A imóvel luz do céu sossegava
o crescimento das relvas.
Os bichos da terra, entre as pedras,
sob a mesma luz, eram pedras.
O tempo no minuto se saciava.
Na quietude absorta
se consumava o meio-dia.

E um pássaro cantou, frágil flecha.
O peito com prata ferido vibrou o céu
Moveram-se as horas,
As relvas despertaram...
E senti que a morte era uma flecha
Que não se sabe quem dispara
E num abrir de olhos nós morremos.

domingo, 10 de abril de 2011

ESTRANHO PÁSSARO: um poema de Yuan Chi (210-263)


O estranho pássaro cria sua casa nas florestas,

Seu nome é “fênix”,

Pela manhã bebe em riachos doces

À noite busca repouso nas colinas.

Pelos campos canta suas notas penetrantes.

Ao estender o pescoço, seu olho alcança todos os cantos da terra.

Mas chega uma rajada de vento do Oeste,

E suas penas se deterioram.

Então, voa para o oeste, para lá das Montanhas K'un-lung,

Quem sabe quando regressará?

Agora um grande lamento toma conta da minha mente

Ah, se eu tivesse minha casa em outro lugar!

Um amigo me enviou por email este poema chinês. Recebi numa versão espanhola, mas sem o tradutor.


Um pouco sobre a fênix chinesa: clique aqui

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Chamado: um poema de Carlos Drummond de Andrade



Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

Do livro Claro Enigma

sábado, 2 de abril de 2011

MEU CORAÇÃO AO ACASO – GEORG TRAKL


Ao entardecer se ouve o grito dos morcegos.
Dois cavalos negros saltam pelos prados.
A vermelha árvore murmura.
O viajante encontra a pousada na estrada.
Magnífico é o jovem vinho com as nozes.
Magnífico é cambalear ébrio pelo bosque crepuscular.
Através da obscura folhagem soam os sinos dolorosos
Agora sobre o rosto goteja o orvalho.

A partir da versão espanhola de Helmut Pfeiffer

terça-feira, 29 de março de 2011

NÃO POSSO OFERECER-LHE UMA ÚNICA FLOR: POEMA DE Rabindranath Tagore


Não posso oferecer-lhe uma única flor
Dentre todos os tesouros da primavera,
Nem um único raio de luz do ouro destas nuvens.
Abre a sua porta e olha
E, dentre as flores de teu jardim,
Colhe a lembrança do perfume das flores
Que há cem anos já morreram.

Oxalá possas sentir na alegria de teu coração
A alegria viva que nesta manhã de abril te envio
Atravessando cem anos e cantando sempre venturosa!

A partir da versão em espanhol feita por Zenobia Camprubi de Jiménez

sábado, 26 de março de 2011

PARA FAZER UM SONETO: poema de Carlos Pena Filho





Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.


Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.


Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.


Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

sábado, 19 de março de 2011

Baco não quer altar nem quer admiração: um poema de Salvat Monho (1749-1821)

Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.

Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
Deixemo-nos beber se o coração mandar.

Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.

Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.


Tradução: Fábio Aristimunho Vargas
Livro: Poesia Basca (das origens a guerra civil)