sábado, 30 de abril de 2011

Um dia: poema de DARIO JARAMILLO AGUDELO



Um dia te escreverei um poema que não
mencione nem o ar nem a noite;
um poema que esconda o nome das flores,
que não tenha jasmins ou magnólias.

Um dia te escreverei um poema sem pássaros,
sem fontes, um poema que descarte o mar
e que não olhe as estrelas.

Um dia te escreverei um poema que se limite
a correr os dedos por tua pele
e que converta em palavras os teus olhos.
Sem comparação, sem metáforas;
um dia te escreverei um poema que tenha teu odor,
um poema com o ritmo de tuas pulsações,
com a intensidade esmagadora de teu abraço.
Um dia te escreverei um poema, o canto da minha felicidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Não tendo chegado as flores: poema de Rogel Samuel



120.NÃO TENDO CHEGADO AS FLORES

De primavera, gozo o prazer
de dar-te a prévia rosa
queiramos ou não que desabroche
na mão da tua lâmina terna
e sem dizer o que devemos
ponho os olhos nos limites da estrada.
Quem assim te afague, ó meu amor
que ainda te amo como agora
folha da tua árvore querendo
ver-te como estrela
o mais de sobretodas as senhoras
olham de perto o incerto par.
Sejamos lógicos com estas grinaldas
de primavera que inventei sem peso
me apaixonei sem me aproximar.

Do livro 120 poemas de Rogel Samuel. Para ler clique aqui.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O pássaro: um poema de Octavio Paz


Um silêncio de ar, luz e céu.
Em silêncio transparente
o dia repousava:
a transparência do espaço
era a transparência do silêncio.
A imóvel luz do céu sossegava
o crescimento das relvas.
Os bichos da terra, entre as pedras,
sob a mesma luz, eram pedras.
O tempo no minuto se saciava.
Na quietude absorta
se consumava o meio-dia.

E um pássaro cantou, frágil flecha.
O peito com prata ferido vibrou o céu
Moveram-se as horas,
As relvas despertaram...
E senti que a morte era uma flecha
Que não se sabe quem dispara
E num abrir de olhos nós morremos.

domingo, 10 de abril de 2011

ESTRANHO PÁSSARO: um poema de Yuan Chi (210-263)


O estranho pássaro cria sua casa nas florestas,

Seu nome é “fênix”,

Pela manhã bebe em riachos doces

À noite busca repouso nas colinas.

Pelos campos canta suas notas penetrantes.

Ao estender o pescoço, seu olho alcança todos os cantos da terra.

Mas chega uma rajada de vento do Oeste,

E suas penas se deterioram.

Então, voa para o oeste, para lá das Montanhas K'un-lung,

Quem sabe quando regressará?

Agora um grande lamento toma conta da minha mente

Ah, se eu tivesse minha casa em outro lugar!

Um amigo me enviou por email este poema chinês. Recebi numa versão espanhola, mas sem o tradutor.


Um pouco sobre a fênix chinesa: clique aqui

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Chamado: um poema de Carlos Drummond de Andrade



Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

Do livro Claro Enigma

sábado, 2 de abril de 2011

MEU CORAÇÃO AO ACASO – GEORG TRAKL


Ao entardecer se ouve o grito dos morcegos.
Dois cavalos negros saltam pelos prados.
A vermelha árvore murmura.
O viajante encontra a pousada na estrada.
Magnífico é o jovem vinho com as nozes.
Magnífico é cambalear ébrio pelo bosque crepuscular.
Através da obscura folhagem soam os sinos dolorosos
Agora sobre o rosto goteja o orvalho.

A partir da versão espanhola de Helmut Pfeiffer

terça-feira, 29 de março de 2011

NÃO POSSO OFERECER-LHE UMA ÚNICA FLOR: POEMA DE Rabindranath Tagore


Não posso oferecer-lhe uma única flor
Dentre todos os tesouros da primavera,
Nem um único raio de luz do ouro destas nuvens.
Abre a sua porta e olha
E, dentre as flores de teu jardim,
Colhe a lembrança do perfume das flores
Que há cem anos já morreram.

Oxalá possas sentir na alegria de teu coração
A alegria viva que nesta manhã de abril te envio
Atravessando cem anos e cantando sempre venturosa!

A partir da versão em espanhol feita por Zenobia Camprubi de Jiménez