quarta-feira, 18 de maio de 2011

Horas Mortas: um poema de Alberto de Oliveira





Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel - rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

sábado, 14 de maio de 2011

Fim do mundo: um poema de Jakob van Hoddis







O chapéu voa da cabeça do cidadão,
Em todos os ares retumba-se gritaria.
Caem os telhadores e se despedaçam
E nas costas — lê-se — sobe a maré.



A tempestade chegou, saltam à terra
Mares selvagens que esmagam largos diques.
A maioria das pessoas tem coriza.
Os trens precipitam-se das pontes.



tradução Claudia Cavalcanti

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um poema de Mário Cesariny




Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

sábado, 30 de abril de 2011

Um dia: poema de DARIO JARAMILLO AGUDELO



Um dia te escreverei um poema que não
mencione nem o ar nem a noite;
um poema que esconda o nome das flores,
que não tenha jasmins ou magnólias.

Um dia te escreverei um poema sem pássaros,
sem fontes, um poema que descarte o mar
e que não olhe as estrelas.

Um dia te escreverei um poema que se limite
a correr os dedos por tua pele
e que converta em palavras os teus olhos.
Sem comparação, sem metáforas;
um dia te escreverei um poema que tenha teu odor,
um poema com o ritmo de tuas pulsações,
com a intensidade esmagadora de teu abraço.
Um dia te escreverei um poema, o canto da minha felicidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Não tendo chegado as flores: poema de Rogel Samuel



120.NÃO TENDO CHEGADO AS FLORES

De primavera, gozo o prazer
de dar-te a prévia rosa
queiramos ou não que desabroche
na mão da tua lâmina terna
e sem dizer o que devemos
ponho os olhos nos limites da estrada.
Quem assim te afague, ó meu amor
que ainda te amo como agora
folha da tua árvore querendo
ver-te como estrela
o mais de sobretodas as senhoras
olham de perto o incerto par.
Sejamos lógicos com estas grinaldas
de primavera que inventei sem peso
me apaixonei sem me aproximar.

Do livro 120 poemas de Rogel Samuel. Para ler clique aqui.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O pássaro: um poema de Octavio Paz


Um silêncio de ar, luz e céu.
Em silêncio transparente
o dia repousava:
a transparência do espaço
era a transparência do silêncio.
A imóvel luz do céu sossegava
o crescimento das relvas.
Os bichos da terra, entre as pedras,
sob a mesma luz, eram pedras.
O tempo no minuto se saciava.
Na quietude absorta
se consumava o meio-dia.

E um pássaro cantou, frágil flecha.
O peito com prata ferido vibrou o céu
Moveram-se as horas,
As relvas despertaram...
E senti que a morte era uma flecha
Que não se sabe quem dispara
E num abrir de olhos nós morremos.

domingo, 10 de abril de 2011

ESTRANHO PÁSSARO: um poema de Yuan Chi (210-263)


O estranho pássaro cria sua casa nas florestas,

Seu nome é “fênix”,

Pela manhã bebe em riachos doces

À noite busca repouso nas colinas.

Pelos campos canta suas notas penetrantes.

Ao estender o pescoço, seu olho alcança todos os cantos da terra.

Mas chega uma rajada de vento do Oeste,

E suas penas se deterioram.

Então, voa para o oeste, para lá das Montanhas K'un-lung,

Quem sabe quando regressará?

Agora um grande lamento toma conta da minha mente

Ah, se eu tivesse minha casa em outro lugar!

Um amigo me enviou por email este poema chinês. Recebi numa versão espanhola, mas sem o tradutor.


Um pouco sobre a fênix chinesa: clique aqui