domingo, 12 de junho de 2011

Branco: poema de Juan Ramón Jiménez





Branco, primeiro. De um branco

De inocência, cego, branco,

Branco de ignorância, branco,


Pronto verdeja o veneno.

Abre janelas o corpo.

O branco torna-se negro.



Guerra de noite e dias!

O vento assassina a brisa,

A brisa ao vento..
.................................Na brisa

Vem reconquistando o branco.

Branco verdadeiro, branco

Já de eternidade, branco.


Tradução Manuel Bandeira

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poema VII: 24 de Simônides de Ceos



Videira, mãe da uva e do vinho que tudo apaziguas,
&nbsp &nbsp &nbsp possa a teia de tuas gavinhas tortuosas
florescer, exuberante, no chão fino e coroar
&nbsp &nbsp &nbsp a estela da tumba do teano Anacreonte,
para que ele, festeiro e ébrio do vinho a que é tão [dado,
&nbsp &nbsp &nbsp tangendo sua lira amante de rapazes
noite afora, sob a terra, tenha acima da cabeça
&nbsp &nbsp &nbsp os galhos com o esplêndido racimo maduro,
e que possa umedecê-lo sempre o sereno da noite
&nbsp &nbsp &nbsp que sua boca de ancião tão doce respirava.



Tradução de José Paulo Paes
Sobre Simônides de Ceos: clique aqui
Sobre Anacreonte: clique aqui

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Secos & Molhados e Manuel Bandeira: Rondó do Capitão




Bão balalão,
Senhor capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!

Poema de Manuel Bandeira incluído no livro Lira dos Cinquent'anos
8 de outubro de 1940

domingo, 29 de maio de 2011

Secos & Molhados e Fernando Pessoa



Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Pedido: um poema de Gonçalves Dias






Ontem no baile
Não me atendias!
Não me atendias,
Quando eu falava.

De mim bem longe
Teu pensamento!
Teu pensamento,
Bem longe errava.

Eu vi teus olhos
Sobre outros olhos!
Sobre outros olhos,
Que eu odiava.

Tu lhe sorriste
Com tal sorriso!
Com tal sorriso,
Que apunhalava.

Tu lhe falaste
Com voz tão doce!
Com voz tão doce,
Que me matava.

Oh! não lhe fales,
Não lhe sorrias,
Se então só qu'rias
Exp'rimentar-me.

Oh! não lhe fales,
Não lhe sorrias,
Não lhe sorrias,
Que era matar-me.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um poema de Jonathan Fontenelle






Subo as paredes do meu quarto
A neve leva os meus cabelos
Imagens a dividir os dias

Subo procurando o meu deserto
A neve, extremamente leve
As imagens... fotocópias de Marina

mãe ou esposa:
as muletas

logicamente
desproporcional

Canto moléculas

Tu sabes


Segundo Jonathan, o poema foi inspirado na fotografia acima (de Nadar), encontrada num livro de Roland Barthes.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Horas Mortas: um poema de Alberto de Oliveira





Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas. O ósculo teu me vivifica
Mas é tão tarde! Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel - rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.