quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma noite em Los Andes: um poema de Ronald de Carvalho

"Naquela noite de Los
Andes eu amei como nunca o Brasil.

De repente,
Um cheiro de Bogari, um cheiro de varanda
carioca balançou no ar...

Vinha não sei de onde o murmúrio de um
córrego tranqüilo,
escorregando como um lagarto pela terra
molhada.

A sombra vestia uma frescura de folhas
úmidas.

Um vagalume grosso correu no mato.
Queimou-se no sereno.

Eu fiquei olhando uma porção de cousas
doces maternais...

Eu fiquei olhando, longo tempo o céu da
noite chilena as quatro estrelas de um
cruzeiro pendurado fora do lugar..."

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Soneto 55 de William Shakespeare







Nem mármore, nem áureos monumentos
De reis hão de durar mais que esta rima,
E sempre hás de brilhar nestes acentos
Do que na pedra, pois o tempo a lima.

Pode a estátua na guerra ser tombada
E a cantaria o vil motim destrua;
Nem fogo ou Marte apagará com a espada
Vivo registro da memória tua.

Há de seguir teu passo sobranceiro
Vencendo a Morte e as legiões do olvido,
E os pósteros, no juízo derradeiro,

Hão de a este louvor prestar ouvido.
Pois até a sentença que levantes,
Vives aqui e no lábio dos amantes.


tradução Ivo Barroso

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Poema de Wang Wei (699-759 D. De C.)


Ultimamente tenho compreendido o significado da tranquilidade,
dias após dia me mantenho longe da multidão.
Limpei minha cabana e a preparei para a visita de um monge,
que chegou de longínquas montanhas para visitar-me.
Descendo veio dos picos ocultos pelas nuvens,
para ver-me na minha casa de teto de palha.
Sentados no pasto compartilhamos a resina do pinheiro,
queimando incenso lemos os sutras do Tao.
Ao terminar o dia, acendemos nossa lamparina
os sinos do templo anunciavam o
começo da noite.
Repentinamente, adverti que a
tranquilidade é realmente Felicidade
e senti que minha vida é feita de um farto tempo livre



****
O dia hoje é a tranquilidade. E só assim foi possível aproximar-me do poema de Wang Wei. Por isso, antes não havia comentado.
A tranquilidade se faz do ócio, que abre a porta para sentirmos o acolhimento de nosso abrigo. Dessa maneira é que o abrigo pode ser, então, amado. E o que se ama não permanece fechado. Abre-se a quem chega. Abre-se à visita, à pessoa que se ama.


A pessoa que me visita também virá acolher-me, já que de tão longe me vem fazer a visita. O exterior se encontra com a intimidade de meu abrigo: ama-se o exterior, porque se ama o interior e vice-versa.
Mas o que oferecer à visita tão importante que vem chegando dos altos picos de uma montanha para se instalar numa casa de teto de palha?
Ofereço meu abrigo, minha casa, onde eu habito - espaço que amo e que é feito de Tranquilidade, Felicidade e Ócio. (Jefferson Bessa)

sábado, 18 de junho de 2011

Duas fotografias de Henri Silberman


Foggy Day on Brooklyn Bridge

Verrazano Bridge

domingo, 12 de junho de 2011

Branco: poema de Juan Ramón Jiménez





Branco, primeiro. De um branco

De inocência, cego, branco,

Branco de ignorância, branco,


Pronto verdeja o veneno.

Abre janelas o corpo.

O branco torna-se negro.



Guerra de noite e dias!

O vento assassina a brisa,

A brisa ao vento..
.................................Na brisa

Vem reconquistando o branco.

Branco verdadeiro, branco

Já de eternidade, branco.


Tradução Manuel Bandeira

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Poema VII: 24 de Simônides de Ceos



Videira, mãe da uva e do vinho que tudo apaziguas,
&nbsp &nbsp &nbsp possa a teia de tuas gavinhas tortuosas
florescer, exuberante, no chão fino e coroar
&nbsp &nbsp &nbsp a estela da tumba do teano Anacreonte,
para que ele, festeiro e ébrio do vinho a que é tão [dado,
&nbsp &nbsp &nbsp tangendo sua lira amante de rapazes
noite afora, sob a terra, tenha acima da cabeça
&nbsp &nbsp &nbsp os galhos com o esplêndido racimo maduro,
e que possa umedecê-lo sempre o sereno da noite
&nbsp &nbsp &nbsp que sua boca de ancião tão doce respirava.



Tradução de José Paulo Paes
Sobre Simônides de Ceos: clique aqui
Sobre Anacreonte: clique aqui

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Secos & Molhados e Manuel Bandeira: Rondó do Capitão




Bão balalão,
Senhor capitão,
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
- Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!

Poema de Manuel Bandeira incluído no livro Lira dos Cinquent'anos
8 de outubro de 1940