Dissipa o dia, Mostra aos homens as leves imagens da aparência, Retira aos homens a possibilidade de se distraírem É duro como a pedra, A pedra informe, A pedra do movimento e da vista, E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, [se tornam falsas. O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão. O que foi compreendido já não existe. A ave confundiu-se com o vento, O céu com a sua verdade, O homem com a sua realidade.
Não sei se sou feliz ou afortunado. Mas sempre lembro alegre um simples dado: na grande soma, a soma odiosa e vasta, a que em tal cúmulo os contém, não sou um dos tantos somados. No seu rol não fui por certo incluído. Isso me basta.
Postei no Youtube o trecho "e começo aqui" do Haroldo de Campos. Abaixo divulgo a postagem na qual se pode ouvir o próprio Haroldo de Campos recitando o fragmento inicial do livro Galáxias.
e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma- páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim- comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala
Com a enxada da palavra cavo a leira dos rebentos. Por vezes, a lâmina das sílabas faísca numa pedra mais agreste escondida debaixo da terra. Apanho-a e perscruto-a com curiosidade de geólogo. É uma pedra de múltiplas faces. Contudo, só uma reluz quando lhe toco. Mas é a aresta mais obscura e rugosa a que me interpela.