Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.
Minha barca desliza rápida. Contemplo o rio. Há nuvens passando pelo céu.A água é também uma noite clara. Quando uma nuvem escorrega por cima da lua, vejo-a escorregar no rio e parece-me que vago em pleno céu.Penso em minha amada, que se reflete assim no meu coração.tradução de Cecília Meireles
A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.
Por entre a sombra fúnebre, e distante
Rompe o vulto do alivio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais frágil, ora mais constante.
Corre o desejo ao vê-lo descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.
Faz-se parcial da dita a desventura;
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura.
Dissipa o dia,Mostra aos homens as leves imagens da aparência,Retira aos homens a possibilidade de se distraíremÉ duro como a pedra,A pedra informe,A pedra do movimento e da vista,E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, [se tornam falsas.O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão.O que foi compreendido já não existe.A ave confundiu-se com o vento,O céu com a sua verdade,O homem com a sua realidade.tradução: António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.