domingo, 23 de outubro de 2011

"Para meus versos, escritos num repente": um poema de Marina Tzvietáieva


Para meus versos, escritos num repente
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
- Versos que ler ninguém pensa! -

Jogados em sebos poeirentos
(Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.

Tradução:Aurora F. Bernardini

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CHUVA DE CAJU: poema de Joaquim Cardozo



Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

MINHA BARCA DESLIZA RÁPIDA: um poema de TU FU


Minha barca desliza rápida. Contemplo o rio. Há nuvens passando pelo céu.


A água é também uma noite clara. Quando uma nuvem escorrega por cima da lua, vejo-a escorregar no rio e parece-me que vago em pleno céu.


Penso em minha amada, que se reflete assim no meu coração.


tradução de Cecília Meireles

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

UM POEMA DE CLAUDIO MANOEL DA COSTA




A cada instante, Amor, a cada instante
No duvidoso mar de meu cuidado
Sinto de novo um mal, e desmaiado
Entrego aos ventos a esperança errante.

Por entre a sombra fúnebre, e distante
Rompe o vulto do alivio mal formado;
Ora mais claramente debuxado,
Ora mais frágil, ora mais constante.

Corre o desejo ao vê-lo descoberto;
Logo aos olhos mais longe se afigura,
O que se imaginava muito perto.

Faz-se parcial da dita a desventura;
Porque nem permanece o dano certo,
Nem a glória tão pouco está segura.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O espelho de um momento: um poema de Paul Eluard


Dissipa o dia,
Mostra aos homens as leves imagens da aparência,
Retira aos homens a possibilidade de se distraírem
É duro como a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da vista,
E o seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras, [se tornam falsas.
O que a mão tomou desdenha tomar a forma da mão.
O que foi compreendido já não existe.
A ave confundiu-se com o vento,
O céu com a sua verdade,
O homem com a sua realidade.

tradução: António Ramos Rosa e Luísa Neto Jorge

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Prefiro rosas, meu amor, à pátria: um poema de Ricardo Reis




Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indif'rença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.