Todo dia ouço o rumor das águas       Em lamento, Graves como a gaivota, indo       Só, no vento Que grita ao mar em seu moroso       Movimento.
No vento frio, no vento escuro       Vou-me à toa. Escuto o manancial que lá do       Fundo escoa. Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,       Ele escoa.
Por esta fresta te espreito Por esta fenda te desvendo
Por esta fresta             cravo sonda contra esponja e babo             e te penetro teso e reto, e por inteiro o teu corpo se entreabre: porta e perno, caixa e coxa Por esta fenda             tenda de pele que se franze e rasga             eu me adentro feito de espera e de esperma e espremo —te aporto— e exprimo toda a cor da carne do amor que escrevo.
Por estafenda me espreito Por estafenda me desvendo.
Pudera o dia me deixar numa caixinha uma pedra E na janela uma borboleta de ouro como um vitral Pudera a noite me deixar um punhado de cristais Feitos de estalactites de febre - e uma boneca feita de sonhos Pudera eu ter objetos que ganhassem vida no coração Pensamentos na seda e lembranças no vidro Das tuas visitas eu quisera pulseiras de sangue O colar de um sorriso e anel de um instante.
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as nações não encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Do livro Sentimento do Mundo
ABAIXO O VÍDEO EM QUE CAETANO VELOSO RECITA O POEMA ELEGIA 1938 DE DRUMMOND:
Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso.
Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal?
Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por nós. Por que labutar no campo, na cidade? A máquina o fará por nós. Por que pensar, imaginar? A máquina o fará por nós. Por que fazer um poema? A máquina o fará por nós. Por que subir a escada de Jacó? A máquina o fará por nós.
Derruba uma floresta, esmaga cem homens, Mas tem um defeito -       Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general, é poderoso: Voa mais depressa que a tempestade e transporta mais carga que um elefante. Mas tem um defeito -       Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar Mas tem um defeito -       Sabe pensar