domingo, 27 de novembro de 2011

"Todo dia ouço o rumor das águas": Um poema de James Joyce







Todo dia ouço o rumor das águas
      Em lamento,
Graves como a gaivota, indo
      Só, no vento
Que grita ao mar em seu moroso
      Movimento.


No vento frio, no vento escuro
      Vou-me à toa.
Escuto o manancial que lá do
      Fundo escoa.
Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,
      Ele escoa.

tradução: Alípio Correia de Franca Neto

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Madamoiselle furta-cor: um poema de Armando Freitas Filho






Por esta fresta te espreito
Por esta fenda te desvendo

Por esta fresta
            cravo
sonda contra esponja
e babo
            e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o teu corpo se entreabre:
porta e perno, caixa e coxa
Por esta fenda
            tenda
de pele que se franze
e rasga
            eu me adentro
feito de espera e de esperma
e espremo —te aporto— e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por estafenda me espreito
Por estafenda me desvendo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Materializações: um poema de Max Blecher



Pudera o dia me deixar numa caixinha uma pedra
E na janela uma borboleta de ouro como um vitral
Pudera a noite me deixar um punhado de cristais
Feitos de estalactites de febre - e uma boneca feita de sonhos
Pudera eu ter objetos que ganhassem vida no coração
Pensamentos na seda e lembranças no vidro
Das tuas visitas eu quisera pulseiras de sangue
O colar de um sorriso e anel de um instante.

tradução: Fernando Klabin

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ELEGIA 1938: UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE LIDO POR CAETANO VELOSO







Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as nações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Do livro Sentimento do Mundo

ABAIXO O VÍDEO EM QUE CAETANO VELOSO RECITA O POEMA ELEGIA 1938 DE DRUMMOND:

domingo, 6 de novembro de 2011

Ladainha: um poema de Cassiano Ricardo




Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

"O Vosso Tanque, General, É Um Carro-Forte": poema de Bertolt Brecht






Derruba uma floresta, esmaga cem homens,
Mas tem um defeito
-       Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general, é poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade e
transporta mais carga que um elefante.
Mas tem um defeito
-       Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
-       Sabe pensar

tradução Joaquim Cardozo

domingo, 23 de outubro de 2011

"Para meus versos, escritos num repente": um poema de Marina Tzvietáieva


Para meus versos, escritos num repente
Quando eu nem sabia que era poeta,
Jorrando como pingos de nascente,
Como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
No santuário, onde há sono e incenso,
Para meus versos de mocidade e morte,
- Versos que ler ninguém pensa! -

Jogados em sebos poeirentos
(Onde ninguém os pega ou pegará)
Para meus versos, como os vinhos raros,
Chegará seu tempo.

Tradução:Aurora F. Bernardini