quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ao Tempo: um poema de Dante Milano


Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,



Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando andando andando andando andando



Tempo, vais para diante ou para trás?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conversa Galante: um poema de T.S. Eliot





Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!
Ou talvez (é fantástico, admito)
Seja o balão do Preste João que agora fito
Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”
E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado
Esse noturno raro, com que explicamos
A noite e o luar; partitura que roubamos
Para dar forma ao nossa nada.”
E ela: “Me dirá isso respeito?”
“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,
A eterna inimiga do absoluto,
A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!
Com vosso ar indiferente e resoluto,
De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”
E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”


Tradução: Ivan Junqueira

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

UM TRECHO DE PAUL VALÉRY



"O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um "motivo", uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma...Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir."

Do ensaio "Poesia e pensamento abstrato"

domingo, 27 de novembro de 2011

"Todo dia ouço o rumor das águas": Um poema de James Joyce







Todo dia ouço o rumor das águas
      Em lamento,
Graves como a gaivota, indo
      Só, no vento
Que grita ao mar em seu moroso
      Movimento.


No vento frio, no vento escuro
      Vou-me à toa.
Escuto o manancial que lá do
      Fundo escoa.
Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,
      Ele escoa.

tradução: Alípio Correia de Franca Neto

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Madamoiselle furta-cor: um poema de Armando Freitas Filho






Por esta fresta te espreito
Por esta fenda te desvendo

Por esta fresta
            cravo
sonda contra esponja
e babo
            e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o teu corpo se entreabre:
porta e perno, caixa e coxa
Por esta fenda
            tenda
de pele que se franze
e rasga
            eu me adentro
feito de espera e de esperma
e espremo —te aporto— e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por estafenda me espreito
Por estafenda me desvendo.

domingo, 13 de novembro de 2011

Materializações: um poema de Max Blecher



Pudera o dia me deixar numa caixinha uma pedra
E na janela uma borboleta de ouro como um vitral
Pudera a noite me deixar um punhado de cristais
Feitos de estalactites de febre - e uma boneca feita de sonhos
Pudera eu ter objetos que ganhassem vida no coração
Pensamentos na seda e lembranças no vidro
Das tuas visitas eu quisera pulseiras de sangue
O colar de um sorriso e anel de um instante.

tradução: Fernando Klabin

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ELEGIA 1938: UM POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE LIDO POR CAETANO VELOSO







Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as nações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Do livro Sentimento do Mundo

ABAIXO O VÍDEO EM QUE CAETANO VELOSO RECITA O POEMA ELEGIA 1938 DE DRUMMOND: