Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua! Ou talvez (é fantástico, admito) Seja o balão do Preste João que agora fito Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.” E ela: “Como divagais!”
Eu, então: “Alguém modula no teclado Esse noturno raro, com que explicamos A noite e o luar; partitura que roubamos Para dar forma ao nossa nada.” E ela: “Me dirá isso respeito?” “Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”
“Vós, senhora, sois a perene ironia, A eterna inimiga do absoluto, A que mais de leve torce nossa tristeza erradia! Com vosso ar indiferente e resoluto, De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…” E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”
"O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um "motivo", uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma...Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir."
Todo dia ouço o rumor das águas       Em lamento, Graves como a gaivota, indo       Só, no vento Que grita ao mar em seu moroso       Movimento.
No vento frio, no vento escuro       Vou-me à toa. Escuto o manancial que lá do       Fundo escoa. Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,       Ele escoa.
Por esta fresta te espreito Por esta fenda te desvendo
Por esta fresta             cravo sonda contra esponja e babo             e te penetro teso e reto, e por inteiro o teu corpo se entreabre: porta e perno, caixa e coxa Por esta fenda             tenda de pele que se franze e rasga             eu me adentro feito de espera e de esperma e espremo —te aporto— e exprimo toda a cor da carne do amor que escrevo.
Por estafenda me espreito Por estafenda me desvendo.
Pudera o dia me deixar numa caixinha uma pedra E na janela uma borboleta de ouro como um vitral Pudera a noite me deixar um punhado de cristais Feitos de estalactites de febre - e uma boneca feita de sonhos Pudera eu ter objetos que ganhassem vida no coração Pensamentos na seda e lembranças no vidro Das tuas visitas eu quisera pulseiras de sangue O colar de um sorriso e anel de um instante.
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as nações não encerram nenhum exemplo. Praticas laboriosamente os gestos universais, sentes calor e frio, falta dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas, e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção. À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer. Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócio do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor. Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota e adiar para outro século a felicidade coletiva. Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Do livro Sentimento do Mundo
ABAIXO O VÍDEO EM QUE CAETANO VELOSO RECITA O POEMA ELEGIA 1938 DE DRUMMOND: