quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

VANDALISMO: SONETO DE AUGUSTO DOS ANJOS




Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

sábado, 7 de janeiro de 2012

UM SONETO DE GEIR CAMPOS


Talvez não venham a saber jamais
quanto de mim em ti carregas quando
vais ter com ela e fico só pensando
no que costuma haver entre os casais:

em pensamento vou a quanto vais
e quando a olhas eu a estou olhando
e quando a tocas eu a estou tocando
e teus genitais são meus genitais...

Quando chegas alfim de estar com ela
vejo teus olhos e ouço os olhos dela
dizendo coisas que ela a mim não diz:

vens leve e é também minha essa leveza
- e a alegria que em mim acham acesa
é mais um jeito meu de ser feliz.


*soneto presente na revista "Encontros com a civilização brasileira" número 17. Segundo a revista, os sonetos de Geir Campos publicados estavam no prelo e seriam lançados no livro "Tarefa e Cantar de Amigo".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM POEMA DE OMAR KHAYYAM


Uma vez que se ignora o que é que nos reserva
O dia de amanhã, busca ser feliz hoje.
Vai sentar-te ao luar e bebe. Pois talvez
Não vivas mais quando amanhã voltar a lua.

Tradução Manuel Bandeira.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ao Tempo: um poema de Dante Milano


Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,



Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando andando andando andando andando



Tempo, vais para diante ou para trás?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conversa Galante: um poema de T.S. Eliot





Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!
Ou talvez (é fantástico, admito)
Seja o balão do Preste João que agora fito
Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”
E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado
Esse noturno raro, com que explicamos
A noite e o luar; partitura que roubamos
Para dar forma ao nossa nada.”
E ela: “Me dirá isso respeito?”
“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,
A eterna inimiga do absoluto,
A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!
Com vosso ar indiferente e resoluto,
De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”
E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”


Tradução: Ivan Junqueira

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

UM TRECHO DE PAUL VALÉRY



"O poeta desperta no homem através de um acontecimento inesperado, um incidente externo ou interno: uma árvore, um rosto, um "motivo", uma emoção, uma palavra. E às vezes é uma vontade de expressão que começa a partida, uma necessidade de traduzir o que se sente; mas às vezes é, ao contrário, um elemento de forma, um esboço de expressão que procura sua causa, que procura um sentido no espaço da minha alma...Observem bem esta dualidade possível de entrada em jogo: às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir."

Do ensaio "Poesia e pensamento abstrato"

domingo, 27 de novembro de 2011

"Todo dia ouço o rumor das águas": Um poema de James Joyce







Todo dia ouço o rumor das águas
      Em lamento,
Graves como a gaivota, indo
      Só, no vento
Que grita ao mar em seu moroso
      Movimento.


No vento frio, no vento escuro
      Vou-me à toa.
Escuto o manancial que lá do
      Fundo escoa.
Dia e noite, escuto-o - indo, vindo,
      Ele escoa.

tradução: Alípio Correia de Franca Neto