domingo, 22 de janeiro de 2012

UM TRECHO DE MAURICE BLANCHOT


" O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor, sua personalidade, sua imodéstia, a obstinação em manter-se em face do que lê, em querer ser um homem que sabe ler em geral. (...) A leitura do poema é o próprio poema, que se afirma obra na leitura."

Do livro O espaço literário

sábado, 14 de janeiro de 2012

SONETO A RICARDO REIS: UM POEMA DE JORGE TUFIC


Não por teu verso fluido e transparente,
Nem pelos deuses a quem sombra calma
Deste, lembrando a suave permanência
Do que puro inda resta onde não somos.

Mas ao prazer deixado ali freqüente
Em ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo um orbe revelas na existência
De um sorriso que em mármore supomos.

Pelas horas de humano entendimento
Em que dos tempos idos a beleza
Converges para um tempo começado;

E de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada fica além disto que há sonhado.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

VANDALISMO: SONETO DE AUGUSTO DOS ANJOS




Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

sábado, 7 de janeiro de 2012

UM SONETO DE GEIR CAMPOS


Talvez não venham a saber jamais
quanto de mim em ti carregas quando
vais ter com ela e fico só pensando
no que costuma haver entre os casais:

em pensamento vou a quanto vais
e quando a olhas eu a estou olhando
e quando a tocas eu a estou tocando
e teus genitais são meus genitais...

Quando chegas alfim de estar com ela
vejo teus olhos e ouço os olhos dela
dizendo coisas que ela a mim não diz:

vens leve e é também minha essa leveza
- e a alegria que em mim acham acesa
é mais um jeito meu de ser feliz.


*soneto presente na revista "Encontros com a civilização brasileira" número 17. Segundo a revista, os sonetos de Geir Campos publicados estavam no prelo e seriam lançados no livro "Tarefa e Cantar de Amigo".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM POEMA DE OMAR KHAYYAM


Uma vez que se ignora o que é que nos reserva
O dia de amanhã, busca ser feliz hoje.
Vai sentar-te ao luar e bebe. Pois talvez
Não vivas mais quando amanhã voltar a lua.

Tradução Manuel Bandeira.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ao Tempo: um poema de Dante Milano


Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,



Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando andando andando andando andando



Tempo, vais para diante ou para trás?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Conversa Galante: um poema de T.S. Eliot





Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!
Ou talvez (é fantástico, admito)
Seja o balão do Preste João que agora fito
Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”
E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado
Esse noturno raro, com que explicamos
A noite e o luar; partitura que roubamos
Para dar forma ao nossa nada.”
E ela: “Me dirá isso respeito?”
“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,
A eterna inimiga do absoluto,
A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!
Com vosso ar indiferente e resoluto,
De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”
E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”


Tradução: Ivan Junqueira