sábado, 4 de fevereiro de 2012

HOLLYWOOD: UM POEMA DE BERTOLT BRETCH


Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.

Tradução Haroldo de Campos

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

APROXIMAÇÕES: DE MÁRIO QUINTANA





Todo poema é uma aproximação. A sua incompletude é o que aproxima da inquietação do leitor. Este não quer que lhe provém coisa alguma. Está farto de soluções. Eu, por mim, lhe aumentaria as interrogações. Vocês já repararam no olhar de uma criança quando interroga? A vida, a irriquieta inteligência que tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única - e você verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração.


Do livro A Vaca e o Hipogrifo

domingo, 22 de janeiro de 2012

UM TRECHO DE MAURICE BLANCHOT


" O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor, sua personalidade, sua imodéstia, a obstinação em manter-se em face do que lê, em querer ser um homem que sabe ler em geral. (...) A leitura do poema é o próprio poema, que se afirma obra na leitura."

Do livro O espaço literário

sábado, 14 de janeiro de 2012

SONETO A RICARDO REIS: UM POEMA DE JORGE TUFIC


Não por teu verso fluido e transparente,
Nem pelos deuses a quem sombra calma
Deste, lembrando a suave permanência
Do que puro inda resta onde não somos.

Mas ao prazer deixado ali freqüente
Em ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo um orbe revelas na existência
De um sorriso que em mármore supomos.

Pelas horas de humano entendimento
Em que dos tempos idos a beleza
Converges para um tempo começado;

E de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada fica além disto que há sonhado.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

VANDALISMO: SONETO DE AUGUSTO DOS ANJOS




Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

sábado, 7 de janeiro de 2012

UM SONETO DE GEIR CAMPOS


Talvez não venham a saber jamais
quanto de mim em ti carregas quando
vais ter com ela e fico só pensando
no que costuma haver entre os casais:

em pensamento vou a quanto vais
e quando a olhas eu a estou olhando
e quando a tocas eu a estou tocando
e teus genitais são meus genitais...

Quando chegas alfim de estar com ela
vejo teus olhos e ouço os olhos dela
dizendo coisas que ela a mim não diz:

vens leve e é também minha essa leveza
- e a alegria que em mim acham acesa
é mais um jeito meu de ser feliz.


*soneto presente na revista "Encontros com a civilização brasileira" número 17. Segundo a revista, os sonetos de Geir Campos publicados estavam no prelo e seriam lançados no livro "Tarefa e Cantar de Amigo".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UM POEMA DE OMAR KHAYYAM


Uma vez que se ignora o que é que nos reserva
O dia de amanhã, busca ser feliz hoje.
Vai sentar-te ao luar e bebe. Pois talvez
Não vivas mais quando amanhã voltar a lua.

Tradução Manuel Bandeira.