domingo, 26 de fevereiro de 2012

LEGENDA:: UM POEMA DE MÁRIO FAUSTINO


No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.


Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.


Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
(De O Homem e sua hora)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM POEMA DE EMILY DICKINSON


Pousou hoje num galho o Pássaro mais belo
Que conheci em minha vida
e enquanto Mundo houver 
Anseio ver de novo outra visão tão meiga
E já por nada mais cantava
Que o íntimo Prazer
Cessava e retomava a efêmera Cantiga - 
A que feliz Acaso dá-se 
A Glória mais sutil!


tradução José Lira

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FOTOGRAFIA DE MINOR WHITE



BARN DETAIL, WINTER (1954)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

HOLLYWOOD: UM POEMA DE BERTOLT BRETCH


Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.

Tradução Haroldo de Campos

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

APROXIMAÇÕES: DE MÁRIO QUINTANA





Todo poema é uma aproximação. A sua incompletude é o que aproxima da inquietação do leitor. Este não quer que lhe provém coisa alguma. Está farto de soluções. Eu, por mim, lhe aumentaria as interrogações. Vocês já repararam no olhar de uma criança quando interroga? A vida, a irriquieta inteligência que tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única - e você verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração.


Do livro A Vaca e o Hipogrifo

domingo, 22 de janeiro de 2012

UM TRECHO DE MAURICE BLANCHOT


" O que mais ameaça a leitura: a realidade do leitor, sua personalidade, sua imodéstia, a obstinação em manter-se em face do que lê, em querer ser um homem que sabe ler em geral. (...) A leitura do poema é o próprio poema, que se afirma obra na leitura."

Do livro O espaço literário

sábado, 14 de janeiro de 2012

SONETO A RICARDO REIS: UM POEMA DE JORGE TUFIC


Não por teu verso fluido e transparente,
Nem pelos deuses a quem sombra calma
Deste, lembrando a suave permanência
Do que puro inda resta onde não somos.

Mas ao prazer deixado ali freqüente
Em ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo um orbe revelas na existência
De um sorriso que em mármore supomos.

Pelas horas de humano entendimento
Em que dos tempos idos a beleza
Converges para um tempo começado;

E de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada fica além disto que há sonhado.