sexta-feira, 9 de março de 2012
"Palavras que o legislador hebreu": UM SONETO DE GEIR CAMPOS:
Palavras que o legislador hebreu
lavrou no seu altíssimo serviço
- "não cobiçarás" - e ao relê-las, eu
cerro as tábuas da lei e penso nisso:
cobiçá-la...Mas eu não a cobiço,
é um sentimento diferente o meu
e não foi contra mim que escreveu isso
quem visando a cobiça o escreveu.
Fosse o preceito, em vez, "não amarás"
e eu, conhecendo-o, não teria paz
na condição que ostento de amador
impenitente; mas a lei não diz
que seja a alguém vedado ser feliz
com outrem partilhando tanto amor.
*retirado da revista "Encontros com a civilização brasileira", número 17.
domingo, 4 de março de 2012
... Das loucuras: um poema de Mirze
Claude Monet
em loucuras, dizeres e saberes.
Se não há profeta que diga a hora
que vem galopante como agora;
Para mim que nada sei ainda
de fechar abertas feridas,
e rever as fechadas chagas,
que a vida em minha pele tatuou.
Vivo. E por insistir em viver
morro sempre em cada amanhecer.
Retirado do blog da Mirze: Meu lampejo
domingo, 26 de fevereiro de 2012
LEGENDA:: UM POEMA DE MÁRIO FAUSTINO
No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.
Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
(De O Homem e sua hora)
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
UM POEMA DE EMILY DICKINSON
Pousou hoje num galho o Pássaro mais belo
Que conheci em minha vida
e enquanto Mundo houver
Anseio ver de novo outra visão tão meiga
E já por nada mais cantava
Que o íntimo Prazer
Cessava e retomava a efêmera Cantiga -
A que feliz Acaso dá-se
A Glória mais sutil!
tradução José Lira
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
sábado, 4 de fevereiro de 2012
HOLLYWOOD: UM POEMA DE BERTOLT BRETCH
Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.
Tradução Haroldo de Campos
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
APROXIMAÇÕES: DE MÁRIO QUINTANA

Todo poema é uma aproximação. A sua incompletude é o que aproxima da inquietação do leitor. Este não quer que lhe provém coisa alguma. Está farto de soluções. Eu, por mim, lhe aumentaria as interrogações. Vocês já repararam no olhar de uma criança quando interroga? A vida, a irriquieta inteligência que tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea, definitiva, única - e você verá pelos olhos dela que baixou vários risquinhos na sua consideração.
Do livro A Vaca e o Hipogrifo
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