segunda-feira, 19 de março de 2012

UM SONETO DE MÁRIO DE ANDRADE


Aceitarás o amor como eu o encaro?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.


Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.


Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.


Que grandeza...A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Do livro A costela do Grão Cão

sexta-feira, 9 de março de 2012

"Palavras que o legislador hebreu": UM SONETO DE GEIR CAMPOS:


Palavras que o legislador hebreu
lavrou no seu altíssimo serviço
- "não cobiçarás" - e ao relê-las, eu
cerro as tábuas da lei e penso nisso:


cobiçá-la...Mas eu não a cobiço,
é um sentimento diferente o meu
e não foi contra mim que escreveu isso
quem visando a cobiça o escreveu.


Fosse o preceito, em vez, "não amarás"
e eu, conhecendo-o, não teria paz
na condição que ostento de amador


impenitente; mas a lei não diz
que seja a alguém vedado ser feliz
com outrem partilhando tanto amor.


*retirado da revista "Encontros com a civilização brasileira", número 17.

domingo, 4 de março de 2012

... Das loucuras: um poema de Mirze

Claude Monet

Se nos meus morreres tanto vivo,
em loucuras, dizeres e saberes.
Se não há profeta que diga a hora
que vem galopante como agora;


Para mim que nada sei ainda
de fechar abertas feridas,
e rever as fechadas chagas,
que a vida em minha pele tatuou.


Vivo. E por insistir em viver
morro sempre em cada amanhecer.


Retirado do blog da Mirze: Meu lampejo

domingo, 26 de fevereiro de 2012

LEGENDA:: UM POEMA DE MÁRIO FAUSTINO


No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.


Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.


Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
(De O Homem e sua hora)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM POEMA DE EMILY DICKINSON


Pousou hoje num galho o Pássaro mais belo
Que conheci em minha vida
e enquanto Mundo houver 
Anseio ver de novo outra visão tão meiga
E já por nada mais cantava
Que o íntimo Prazer
Cessava e retomava a efêmera Cantiga - 
A que feliz Acaso dá-se 
A Glória mais sutil!


tradução José Lira

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

FOTOGRAFIA DE MINOR WHITE



BARN DETAIL, WINTER (1954)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

HOLLYWOOD: UM POEMA DE BERTOLT BRETCH


Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.

Tradução Haroldo de Campos