terça-feira, 8 de maio de 2012

UM SONETO (VII) DE CLAUDIO MANOEL DA COSTA




Onde estou? Este sítio desconheço: 
Quem fez tão diferente aquele prado? 
Tudo outra natureza tem tomado 
E em contemplá-lo, tímido, esmoreço. 


Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço 
De estar a ela um dia reclinado; 
Ali em vale um monte está mudado: 
Quanto pode dos anos o progresso! 


Árvores aqui vi tão florescentes, 
Que faziam perpétua a primavera: 
Nem troncos vejo agora decadentes. 


Eu me engano: a região esta não era; 
Mas que venho a estranhar, se estão presentes 
Meus males, com que tudo degenera! 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

POESIA DA PRESENÇA INVISÍVEL - POEMA DE JOAQUIM CARDOZO


Através do quadro invisível iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.


E aqueles que tiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
- Todos ele perderam-se no mar.


Agora, na praia deserta estou sozinho
- Caminho
Com os pés descalços na areia.


Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre [as colinas
- A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras [confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave na Noite.


Do livro Poesia

quinta-feira, 26 de abril de 2012

UM POEMA DE MANOEL DE BARROS




Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar
o que não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano.

De: O livro sobre nada, poema 6 da 2º parte "Desejar ser".

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Poema de Álvaro de Campos




Gostava de gostar de gostar.
Um momento...Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua...Dizias 
Que no desenvolvimento da metafísica
de Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho)
Que coisa curiosa estas associações de ideias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua...Hegel

sábado, 7 de abril de 2012

SONETOS A ORFEU (II.12): UM POEMA DE RAINER MARIA RILKE



Anseia pela mudança. Celebra a chama,
ainda que algo do novo se perca na transformação;
o gênio, mestre dos misteres terrestres, só ama,
na dança, o ponto de mutação.


Já é pedra quem estagnado se mantém;
supõe-se protegido quando em cinza se disfarça.
Aguarda: mais duro que o ferro é o aço quem vem do além.
Cuidado -  o martelo ausente ameaça!


Quem como fonte flui, vem à luz pela percepção;
ela o conduz, feliz, pela criação serenada
que, às vezes, nasce no fim e finda no nascimento.


Todo tempo feliz é filho ou neto de separação,
que, pasmos, percorrem. E Dafne, transformada
em loureiro, deseja que te transformes em vento.

tradução: Karlos Rischbieter e Paulo Garfunkel

quinta-feira, 29 de março de 2012

POEMA III DE O PASTOR AMOROSO DE ALBERTO CAEIRO-FERNANDO PESSOA




Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

segunda-feira, 19 de março de 2012

UM SONETO DE MÁRIO DE ANDRADE


Aceitarás o amor como eu o encaro?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.


Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.


Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.


Que grandeza...A evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Do livro A costela do Grão Cão