quinta-feira, 25 de outubro de 2012
“Quando eu te desposar...”: UM POEMA DE HEINRICH HEINE
Quando eu te desposar, teus dias
Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
E ociosidade régia.
Hei de perdoar-te mau humor,
E queixas mas - é claro –
Se não cobrires de louvor
Meu verso, eu me separo.
Tradução: Nelson Ascher
terça-feira, 2 de outubro de 2012
AO ESPELHO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES
Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro...
Do livro "O ouro dos tigres" (1972)
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
O VERBO NO INFINITO: UM POEMA DE VINÍCIUS DE MORAES
Ser criado, gerar-te, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar.
Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito
E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
POEMA IV DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" DE ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA
Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...
Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chovia do céu
E enegreceu os caminhos ...
Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê — eu não tinha medo —
pus-me a rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...
Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentia-me ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentia-me familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranqüilamente, como o muro do quintal;
Tendo idéias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...
Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!
(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...
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quinta-feira, 16 de agosto de 2012
EU SOU TREZENTOS...: UM POEMA DE MÁRIO DE ANDRADE
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios [beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Data do poema: (7-VI-1929). Do livro Remate de Males.
domingo, 12 de agosto de 2012
SAFO DE LESBOS
a Lua já se pôs, as Plêiades também; é meia-
noite; a hora passa e eu,
deitada estou, sozinha.
tradução: Joaquim Brasil Fontes
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
DOIS POEMAS DE JORGE TUFIC
42
Vinho também
é tinta
da caneta-tinteiro:
um tubo secreto
que,
ao vir
da luz,
modela o
impossível.
56
Expectativa
de um poema que estale
em cântaros maduros.
Pode ser um levante
pode ser um dilúvio
pode ser uma rosa.
Desde que estale
ou se rompa.
Dois poemas extraídos do livro Guardanapos pintados com vinho de Jorge Tufic
Vinho também
é tinta
da caneta-tinteiro:
um tubo secreto
que,
ao vir
da luz,
modela o
impossível.
56
Expectativa
de um poema que estale
em cântaros maduros.
Pode ser um levante
pode ser um dilúvio
pode ser uma rosa.
Desde que estale
ou se rompa.
Dois poemas extraídos do livro Guardanapos pintados com vinho de Jorge Tufic
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