domingo, 27 de janeiro de 2013

MORMAÇO: POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA




Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.

Do livro: Apresentação da poesia brasileira. de Manuel Bandeira.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poema de Tu Fu a Li Po



Três noites seguidas venho sonhando contigo.
Estavas à minha porta.
Passavas a mão pelo cabelo branco,
como se uma grande dor te amargurasse a alma...

Depois de dez mil, cem mil outonos,
não terás outro prêmio que o prêmio inútil
da imortalidade.

* tradução Cecília Meireles
* desenho sem crédito encontrado na net

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CANTIGA DE SÁ DE MIRANDA

,


Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria

De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O CEGO: um poema de Rainer Maria Rilke




Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

Tradução: Augusto de Campos
Do livro Anjos e coisas de Rilke

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

“Quando eu te desposar...”: UM POEMA DE HEINRICH HEINE



Quando eu te desposar, teus dias
     Serão dignos de invejas; 
Desfrutarás mil alegrias
     E ociosidade régia.

Hei de perdoar-te mau humor,
     E queixas mas - é claro –
Se não cobrires de louvor
     Meu verso, eu me separo.

Tradução: Nelson Ascher

terça-feira, 2 de outubro de 2012

AO ESPELHO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES



Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro...

Do livro "O ouro dos tigres" (1972)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O VERBO NO INFINITO: UM POEMA DE VINÍCIUS DE MORAES




Ser criado, gerar-te, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar.

Para poder nutrir-se; e despertar
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...