segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
MORMAÇO: POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.
Do livro: Apresentação da poesia brasileira. de Manuel Bandeira.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Poema de Tu Fu a Li Po
Três noites seguidas venho sonhando contigo.
Estavas à minha porta.
Passavas a mão pelo cabelo branco,
como se uma grande dor te amargurasse a alma...
Depois de dez mil, cem mil outonos,
não terás outro prêmio que o prêmio inútil
da imortalidade.
* tradução Cecília Meireles
* desenho sem crédito encontrado na net
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
CANTIGA DE SÁ DE MIRANDA
,
Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais
Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
O CEGO: um poema de Rainer Maria Rilke
Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.
Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:
serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.
Tradução: Augusto de Campos
Do livro Anjos e coisas de Rilke
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
“Quando eu te desposar...”: UM POEMA DE HEINRICH HEINE
Quando eu te desposar, teus dias
Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
E ociosidade régia.
Hei de perdoar-te mau humor,
E queixas mas - é claro –
Se não cobrires de louvor
Meu verso, eu me separo.
Tradução: Nelson Ascher
terça-feira, 2 de outubro de 2012
AO ESPELHO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES
Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?
És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.
O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas
Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
e depois outro, e outro, e outro, e outro...
Do livro "O ouro dos tigres" (1972)
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