domingo, 14 de abril de 2013

BOI MORTO: POEMA DE MANUEL BANDEIRA





Como em turvas águas de enchente, 
Me sinto a meio submergido 
Entre destroços do presente 
Dividido, subdividido, 
Onde rola, enorme, o boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto. 

Árvores da paisagem calma, 
Convosco – altas tão marginais! 
Fica a alma, a atônita alma, 
Atônita para jamais. 
Que o corpo, esse vai com o boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto. 

Boi morto, boi descomedido, 
Boi espantosamente, boi 
Morto, sem forma ou sentido 
Ou significado. O que foi 
Ninguém sabe. Agora é boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto.

Do livro Opus 10

terça-feira, 26 de março de 2013

"um deus também é o vento": poema de Paulo Leminski



um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar

me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar

a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro

nele cresça
até virar vendaval

do livro Caprichos & Relaxos

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

domingo, 27 de janeiro de 2013

MORMAÇO: POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA




Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.

Do livro: Apresentação da poesia brasileira. de Manuel Bandeira.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Poema de Tu Fu a Li Po



Três noites seguidas venho sonhando contigo.
Estavas à minha porta.
Passavas a mão pelo cabelo branco,
como se uma grande dor te amargurasse a alma...

Depois de dez mil, cem mil outonos,
não terás outro prêmio que o prêmio inútil
da imortalidade.

* tradução Cecília Meireles
* desenho sem crédito encontrado na net

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

CANTIGA DE SÁ DE MIRANDA

,


Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria

De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?

*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O CEGO: um poema de Rainer Maria Rilke




Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

Tradução: Augusto de Campos
Do livro Anjos e coisas de Rilke