terça-feira, 14 de maio de 2013
OMAR KHAYYAM
Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.
Rubaiyat 9
Trad. Ivo Barroso
domingo, 14 de abril de 2013
BOI MORTO: POEMA DE MANUEL BANDEIRA
Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Árvores da paisagem calma,
Convosco – altas tão marginais!
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Do livro Opus 10
terça-feira, 26 de março de 2013
"um deus também é o vento": poema de Paulo Leminski
um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar
me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar
a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro
nele cresça
até virar vendaval
do livro Caprichos & Relaxos
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
MORMAÇO: POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.
Do livro: Apresentação da poesia brasileira. de Manuel Bandeira.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Poema de Tu Fu a Li Po
Três noites seguidas venho sonhando contigo.
Estavas à minha porta.
Passavas a mão pelo cabelo branco,
como se uma grande dor te amargurasse a alma...
Depois de dez mil, cem mil outonos,
não terás outro prêmio que o prêmio inútil
da imortalidade.
* tradução Cecília Meireles
* desenho sem crédito encontrado na net
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
CANTIGA DE SÁ DE MIRANDA
,
Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais
Comigo me desavim,
No extremo som do perigo;
Não posso aturar comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia
Antes que esta assi crecesse;
Agora já fugiria
De mi se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo
Se trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
*A grafia orginal se manteve
Do livro 100 poemas essenciais
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