sexta-feira, 5 de julho de 2013
DOIS FRAGMENTOS DE SCHLEGEL
- Notas a um poema são como aulas de anatomia sobre um assado.
- No estilo do poeta genuíno nada é ornamento, tudo é hieróglifo necessário.
domingo, 2 de junho de 2013
"ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE": POEMA DE ALBERTO CAEIRO
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente [brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da [minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da [boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou [significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.
terça-feira, 14 de maio de 2013
OMAR KHAYYAM
Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.
Rubaiyat 9
Trad. Ivo Barroso
domingo, 14 de abril de 2013
BOI MORTO: POEMA DE MANUEL BANDEIRA
Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Árvores da paisagem calma,
Convosco – altas tão marginais!
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Do livro Opus 10
terça-feira, 26 de março de 2013
"um deus também é o vento": poema de Paulo Leminski
um deus também é o vento
só se vê nos seus efeitos
árvores em pânico
bandeiras
água trêmula
navios a zarpar
me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar
a este deus
que levanta a poeira dos caminhos
os levando a voar
consagro este suspiro
nele cresça
até virar vendaval
do livro Caprichos & Relaxos
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
domingo, 27 de janeiro de 2013
MORMAÇO: POEMA DE GUILHERME DE ALMEIDA
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
— uma araponga metálica — bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.
Do livro: Apresentação da poesia brasileira. de Manuel Bandeira.
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