segunda-feira, 21 de outubro de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CINISMOS: UM POEMA DE CESÁRIO VERDE



Eu hei de lhe falar lugubremente 
Do meu amor enorme e massacrado, 
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente. 

Hei de expor-lhe o meu peito descarnado, 
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário, 
E ser menos que um Judas empalhado. 

Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário 
E desvendar a vida, o mundo, o gozo, 
Como um velho filósofo lendário. 

Hei de mostrar, tão triste e tenebroso, 
Os pegos abismais da minha vida, 
E hei de olhá-la dum modo tão nervoso, 

Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida, 
Cheia de dor, tremente, alucinada, 
E há de chorar, chorar enternecida! 

E eu hei de, então, soltar uma risada. 

de O livro de Cesário Verde

sexta-feira, 5 de julho de 2013

DOIS FRAGMENTOS DE SCHLEGEL


- Notas a um poema são como aulas de anatomia sobre um assado.

- No estilo do poeta genuíno nada é ornamento, tudo é hieróglifo necessário.

domingo, 2 de junho de 2013

"ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE": POEMA DE ALBERTO CAEIRO



Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente [brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da [minha mesa 
Abafa toda a existência da terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da [boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou [significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.

terça-feira, 14 de maio de 2013

OMAR KHAYYAM



Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.

Rubaiyat 9
Trad. Ivo Barroso

domingo, 14 de abril de 2013

BOI MORTO: POEMA DE MANUEL BANDEIRA





Como em turvas águas de enchente, 
Me sinto a meio submergido 
Entre destroços do presente 
Dividido, subdividido, 
Onde rola, enorme, o boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto. 

Árvores da paisagem calma, 
Convosco – altas tão marginais! 
Fica a alma, a atônita alma, 
Atônita para jamais. 
Que o corpo, esse vai com o boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto. 

Boi morto, boi descomedido, 
Boi espantosamente, boi 
Morto, sem forma ou sentido 
Ou significado. O que foi 
Ninguém sabe. Agora é boi morto, 

Boi morto, boi morto, boi morto.

Do livro Opus 10