terça-feira, 22 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
CINISMOS: UM POEMA DE CESÁRIO VERDE
Eu hei de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.
Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.
Hei de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei de olhá-la dum modo tão nervoso,
Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há de chorar, chorar enternecida!
E eu hei de, então, soltar uma risada.
de O livro de Cesário Verde
sexta-feira, 5 de julho de 2013
DOIS FRAGMENTOS DE SCHLEGEL
- Notas a um poema são como aulas de anatomia sobre um assado.
- No estilo do poeta genuíno nada é ornamento, tudo é hieróglifo necessário.
domingo, 2 de junho de 2013
"ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE": POEMA DE ALBERTO CAEIRO
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente [brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da [minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da [boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou [significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.
terça-feira, 14 de maio de 2013
OMAR KHAYYAM
Eu considero vil o coração
Que, sendo incapaz de amar, não pode
Conhecer o delírio da paixão,
O amor brutal que explode
Em chamas
E nem o beijo — essa divina
Esmola.
Se não amas
És indigno do Sol que te ilumina
E da Lua que à noite te consola.
Rubaiyat 9
Trad. Ivo Barroso
domingo, 14 de abril de 2013
BOI MORTO: POEMA DE MANUEL BANDEIRA
Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Árvores da paisagem calma,
Convosco – altas tão marginais!
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Do livro Opus 10
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