segunda-feira, 12 de maio de 2014
NO CIRCO: poema de Antero de Quental
Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse Mundo em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...
Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou e vim rolando...
Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.
Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
- É assim que rujo entre leões agora!
domingo, 6 de abril de 2014
UM POEMA DE ESTÊVÃO RODRIGUES DE CASTRO
Em mim me busco a mim e não me alcanço
Fujo de mim e a mim me vou seguindo,
À fortuna um desejo resistindo
Que caminha soberbo e torna manso.
E, se caso ao que quero os olhos lanço,
Que o lanço é desigual estou sentindo,
Que quem nasceu para morrer pedindo
Até que morra pede (em vão) descanso.
Desejo a liberdade e sou cativo,
Os pés pesados de sentir os ferros
Que, quando se não veem, são mais pesados.
Mas diz razão (se com alguma vivo)
Que há tantos males para tantos erros,
Mores castigos para mais pecados.
Antologia de poesia portuguesa (séc. XVI)
sexta-feira, 14 de março de 2014
MODERNAS TEORIAS LITERÁRIAS: novo livro de Rogel Samuel
ÚNICO LUGAR ONDE ESTE LIVRO É VENDIDO:
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É UM EDITOR DE TERESINA-PI
segunda-feira, 10 de março de 2014
O REMORSO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES
Eu cometi o pior dos pecados
Possíveis a um homem. Não ter sido
Feliz. Que os glaciares do olvido
Me arrastem e me percam, despiedados.
Meus pais me geraram para o jogo
Arriscado e esplêndido da vida,
Para a terra, a água, o ar, o fogo.
Frustrei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua jovem vontade. Minha mente
Aplicou-se às simétricas jornadas
Da arte, que entretece nonadas.
Legaram-me. Não fui valente.
Não me abandona. Sempre está ao meu lado
A sombra de ter sido um desditado.
tradução de Josely Vianna Baptista
Do livro "Moeda de ferro" (1976)
domingo, 19 de janeiro de 2014
SABEDORIA: POEMA DE JOSÉ RÉGIO
Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando
Deus quiser.
Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.
Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar...
E venha a morte quando Deus quiser.
Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
SONETO A RICARDO REIS: POEMA DE JORGE TUFIC
Não por teu verso fluido e transparente,
Nem pelos deuses a quem sombra calma
Deste, lembrando a suave permanência
Do que puro inda resta onde não somos.
Mas ao prazer deixado ali freqüente
Em ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo um orbe revelas na existência
De um sorriso que em mármore supomos.
Pelas horas de humano entendimento
Em que dos tempos idos a beleza
Converges para um tempo começado;
E de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada fica além disto que há sonhado.
retirado do blog: Jorge Tufic
sábado, 7 de dezembro de 2013
JORGE DE LIMA: POEMA "DEMOCRACIA"
Punhos de rede embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, malassombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo o que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nome de amor em todas as línguas de branco, de mouro [ou de pagão.
Do livro Poemas Negros
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