quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um poema de Bertolt Brecht



Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Trad. Paulo Quintela

segunda-feira, 12 de maio de 2014

NO CIRCO: poema de Antero de Quental






Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse Mundo em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
- É assim que rujo entre leões agora!

domingo, 6 de abril de 2014

UM POEMA DE ESTÊVÃO RODRIGUES DE CASTRO


Em mim me busco a mim e não me alcanço
Fujo de mim e a mim me vou seguindo,
À fortuna um desejo resistindo
Que caminha soberbo e torna manso.

E, se caso ao que quero os olhos lanço,
Que o lanço é desigual estou sentindo,
Que quem nasceu para morrer pedindo
Até que morra pede (em vão) descanso.

Desejo a liberdade e sou cativo,
Os pés pesados de sentir os ferros
Que, quando se não veem, são mais pesados.

Mas diz razão (se com alguma vivo)
Que há tantos males para tantos erros,
Mores castigos para mais pecados.

Antologia de poesia portuguesa (séc. XVI)

sexta-feira, 14 de março de 2014

MODERNAS TEORIAS LITERÁRIAS: novo livro de Rogel Samuel



ÚNICO LUGAR ONDE ESTE LIVRO É VENDIDO:
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É UM EDITOR DE TERESINA-PI

segunda-feira, 10 de março de 2014

O REMORSO: POEMA DE JORGE LUIS BORGES


Eu cometi o pior dos pecados 
Possíveis a um homem. Não ter sido 
Feliz. Que os glaciares do olvido 
Me arrastem e me percam, despiedados. 
Meus pais me geraram para o jogo 
Arriscado e esplêndido da vida, 
Para a terra, a água, o ar, o fogo. 
Frustrei-os. Não fui feliz. Cumprida 
Não foi sua jovem vontade. Minha mente 
Aplicou-se às simétricas jornadas
Da arte, que entretece nonadas. 
Legaram-me. Não fui valente. 
Não me abandona. Sempre está ao meu lado 
A sombra de ter sido um desditado.

tradução de Josely Vianna Baptista

Do livro "Moeda de ferro" (1976)

domingo, 19 de janeiro de 2014

SABEDORIA: POEMA DE JOSÉ RÉGIO



Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar... 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SONETO A RICARDO REIS: POEMA DE JORGE TUFIC



Não por teu verso fluido e transparente,
Nem pelos deuses a quem sombra calma
Deste, lembrando a suave permanência
Do que puro inda resta onde não somos.
Mas ao prazer deixado ali freqüente
Em ler-te, aberto o livro e aberta a alma,
Todo um orbe revelas na existência
De um sorriso que em mármore supomos.
Pelas horas de humano entendimento
Em que dos tempos idos a beleza
Converges para um tempo começado;
E de, sendo tão parcos, um momento
Crer-se que o bem maior, glória ou riqueza,
Nada fica além disto que há sonhado.

retirado do blog: Jorge Tufic