domingo, 7 de dezembro de 2014

A CONVALESCENTE: POEMA DE RILKE






Como a canção que vem e vai na rua,
que chega perto e logo mais decresce,
quase inaudível, alça-se e flutua
e depois outra vez desaparece,

a vida brinca na convalescente,
enquanto débil, em seu leito, mal-
azada, como quem se entrega, ausente,
ela perfaz um gesto inusual.

E é quase sedução o que ela sente
quando a mão rígida, que o fogo obscuro
da febre já incendiou, suavemente,
de longe, como que um toque florescente,
consegue acariciar-lhe o queixo duro.

tradução Augusto de Campos

sábado, 25 de outubro de 2014

Konstantinos Kaváfis





Existem mesmo a Verdade e a Mentira? Ou existem apenas o Novo e o Velho, - sendo a Mentira simplesmente a velhice da Verdade?

16/09/1902
tradução José Paulo Paes

sábado, 30 de agosto de 2014

Um poema de Omar Khayyam


LIII

Se baixas teu olhar, fitando duro o Chão,
ou ergues para o Céu em Sua Imensidão,
lembra que Tu és Tu neste exato Momento,
mas e Amanhã, depois da própria negação?

De Rubáiyát
tradução: Luiz Antônio de Figueiredo

sexta-feira, 11 de julho de 2014

AO PÉ DA PENA: POEMA DE PAULO LEMINSKI




todo sujo de tinta
o escriba volta pra casa
cabeça cheia de frases alheias
frases feitas
letras feias
linhas lindas
a pele queima
as palavras queimadas
formas formigas
todas as palavras da tribo

por elas
trocou a vida
dias luzes madrugadas
hoje
quando volta pra casa 
página em branco e em brasa
asa lá se vai
dá de cara com nada
com tudo dentro
                   sai

Do livro "La vie en close"

sexta-feira, 4 de julho de 2014

POEMA DE ROGEL SAMUEL



despertar paredes brancas
despertar paredes brancas, despertar
brancas folhas de papel dormentes
desviar o curso de um regato na encosta
da floresta que canta a sua canção de vento
entornar um pouco desse copo automático
funcionar minhas molas de rascunho pressionadas
retomar o fio da leitura interrompida
iludir o tempo de marcar esta postagem



Este poema está presente no novo blog de poemas de Rogel Samuel. Para visitá-lo, clique AQUI.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um poema de Bertolt Brecht



Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Trad. Paulo Quintela

segunda-feira, 12 de maio de 2014

NO CIRCO: poema de Antero de Quental






Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse Mundo em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
- É assim que rujo entre leões agora!