quinta-feira, 22 de outubro de 2015

HINO: poema de Jefferson Bessa




 HINO


imagino os deuses
reunidos
na minha hora de nascer
imagino as mãos
entrecruzadas
que desejavam me acolher
imagino
como eu chorava
na mão dos que não me agradavam
como eu sentia graça
agradecido
quando a seguir me deitavam
nos braços de outro

fui tocado por tantas mãos
fui assim passando
rolando
por tantas divindades
eram tantos corpos
proviam de tantos lugares
que agora
não me lembraria de um sequer

mas um fato se fez

agora me lembro:
ao meu redor ficaram
os deuses de mãos aquecidas,
envolveram-me
os deuses em corpo bruto
eram todos de beijos
eram de abraços

em meio a tantas mãos
aprendi a ser táctil
hoje sinto
na maneira bruta
vivo num corpo
feito terra revolvida

(ah, deuses dos quais não sei o nome,
nunca me preocupo por onde andais
glorifico-vos sem glorificar
não espero me trazerdes outra coisa
imagino estardes por aí entre ruas e casas
apresentando vossas mãos a quem queira)


Blog de Jefferson: clique aqui

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Cidadela de Barro (1979-1989) de Francisco Brennand


 Clique sobre as fotos para vê-las em tamanho grande.















Encontra-se na Oficina Brennand, localizada em Recife no bairro da Várzea.
Fotos de Janeiro de 2015

sábado, 15 de agosto de 2015

CANTO DA POBREZA: POEMA DE MURILO MENDES



Sentas-te à beira da noite
Para fazer este poema,
Este poema não é teu,
É da tinta e do papel.
Mas o que é teu, afinal?
Ideia de propriedade!
Nada é teu, nem de ninguém.
Teu passado não é teu,
Nem sabes o que ele é.
Na neblina do passado
Quase cego tu navegas,
Mas um braço te pegou, 
Te agarra, não larga mais.
- Este braço não é teu. -
O presente não é teu,
Presente já é passado,
Tu falaste, voz sumiu,
Ah! nem o eco ficou.
Mas o futuro? é de Deus,
E Deus não é de ninguém.
Também não és de ninguém.
Tudo vês e tudo tocas,
Tudo cheiras, tudo ouves,
Nada fica nos teus olhos,
Nada fica na tua mão,
No teu ouvido, nariz.
Levaste a noiva ao altar,
Sei que a noiva não é tua,
Sei que ela também não é
Do noivo que a possuiu,
Ela não é de ninguém;
Nem é de ti que conheces
Os encantos dessa noiva
Muito melhor que seu noivo.
Coisa alguma te pertence,
Também não és de ninguém,
Viste o mundo do telhado,
Cheiraste o mundo, viraste
O namorado do mundo,
Namorado eternamente:
É melhor ficar assim,
Casar dá muito trabalho,
Põe um número na gente,
Põe um título na gente,
Não se pode mais andar
Desenvolto como antes,
A gente tem que prender
Toda atenção num objeto,
A gente fica pensando
Que é dono dalguma coisa,
Que possui móvel de carne...
Mas eu não sou de ninguém.

Do livro "O visionário"

terça-feira, 16 de junho de 2015

O Último Poema: Manuel Bandeira


Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos                                                                                   intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais                                                                              límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

domingo, 26 de abril de 2015

UM POEMA DE HEINRICH HEINE



A ferro e fogo me marcaram,
    Ferido me deixaram
    Uns tanto por rancor
    Outros por amor.

Veneno no pão derramaram
    E no vinho deitaram
    Uns tanto por amor
    Outros por rancor,

Mas aquela que mais feriu,
    Marcou, sorriu e riu:
    Esta não tem amor,
    Nem, ao menos, rancor.

tradução de Décio Pignatari.



domingo, 8 de março de 2015

POEMA DE OMAR KHAYYÁM




XVII

Olha esta hospedaria, tão degradada!
Quantos Dias e Noites, na mesma portada,
inúmeros sultões - e a pompa - repousaram,
retomando em seguida a Incerteza da Estrada.

De Rubáiyát
tradução de Luiz Antônio Figueiredo