terça-feira, 1 de março de 2016

EU – MISTÉRIO: POEMA DE AGOSTINHO NETO





Sou um mistério.

Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.

Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.

Dia
dum eu-realidade.

1947

domingo, 31 de janeiro de 2016

EU NÃO SOU EU: POEMA DE JUAN RAMÓN JIMENEZ



EU NÃO SOU EU




Sou este 
Que vai ao meu lado sem que eu veja;
Que, às vezes, vou ver;
Que, às vezes, esqueço.
O que cala, sereno, quando falo,
O que perdoa, doce, quando odeio,
O que passeia por onde não estou,
O que se mantém de pé quando morro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CHÃO DA PELE: SEGUNDO E-LIVRO DE JEFFERSON BESSA


Chão da pele é o segundo e-livro de poesias de Jefferson Bessa. 
CLIQUE NA IMAGEM PARA LER

domingo, 22 de novembro de 2015

UM SONETO AO SONETO: POEMA DE JORGE TUFIC


para Virgílio Maia

O sol dentro de um ovo: este milagre
tomou forma de barco. E já navega
desde Petrarca ao meu jeitão de brega,
mas encontra entre nós quem o consagre.
Neste garimpo, salivando o agre
desamor pelos campos, faca cega,
o construtor de andaimes não sossega
nem troca o vinho pelo bom vinagre.
Bocage empluma os dedos com suas glosas,
Jorge de Lima extrai-se do cansaço
que fizera de ti um caixão de rosas.
Mas és, soneto, ainda o velho laço
que embora preso a leis tão rigorosas,
a tudo nos obriga em curto espaço.

Retirado do blog de Jorge Tufic. Para visitar clique AQUI.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

MONJOLO: poema de Raul Bopp



Monjolo
Chorado do Bate-Pilão



Fazenda velha. Noite e dia
Bate-pilão.

Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão.

Relógio triste o da fazenda.
Bate-pilão.

Negro deita. Negro acorda.
Bate-pilão.

Quebra-se a tarde. Ave-Maria.
Bate-pilão.

Chega a noite. Toda a noite
Bate-pilão.

Quando há velório de negro
Bate-pilão.

Negro levado pra cova
Bate-pilão.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

HINO: poema de Jefferson Bessa




 HINO


imagino os deuses
reunidos
na minha hora de nascer
imagino as mãos
entrecruzadas
que desejavam me acolher
imagino
como eu chorava
na mão dos que não me agradavam
como eu sentia graça
agradecido
quando a seguir me deitavam
nos braços de outro

fui tocado por tantas mãos
fui assim passando
rolando
por tantas divindades
eram tantos corpos
proviam de tantos lugares
que agora
não me lembraria de um sequer

mas um fato se fez

agora me lembro:
ao meu redor ficaram
os deuses de mãos aquecidas,
envolveram-me
os deuses em corpo bruto
eram todos de beijos
eram de abraços

em meio a tantas mãos
aprendi a ser táctil
hoje sinto
na maneira bruta
vivo num corpo
feito terra revolvida

(ah, deuses dos quais não sei o nome,
nunca me preocupo por onde andais
glorifico-vos sem glorificar
não espero me trazerdes outra coisa
imagino estardes por aí entre ruas e casas
apresentando vossas mãos a quem queira)


Blog de Jefferson: clique aqui

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Cidadela de Barro (1979-1989) de Francisco Brennand


 Clique sobre as fotos para vê-las em tamanho grande.















Encontra-se na Oficina Brennand, localizada em Recife no bairro da Várzea.
Fotos de Janeiro de 2015

sábado, 15 de agosto de 2015

CANTO DA POBREZA: POEMA DE MURILO MENDES



Sentas-te à beira da noite
Para fazer este poema,
Este poema não é teu,
É da tinta e do papel.
Mas o que é teu, afinal?
Ideia de propriedade!
Nada é teu, nem de ninguém.
Teu passado não é teu,
Nem sabes o que ele é.
Na neblina do passado
Quase cego tu navegas,
Mas um braço te pegou, 
Te agarra, não larga mais.
- Este braço não é teu. -
O presente não é teu,
Presente já é passado,
Tu falaste, voz sumiu,
Ah! nem o eco ficou.
Mas o futuro? é de Deus,
E Deus não é de ninguém.
Também não és de ninguém.
Tudo vês e tudo tocas,
Tudo cheiras, tudo ouves,
Nada fica nos teus olhos,
Nada fica na tua mão,
No teu ouvido, nariz.
Levaste a noiva ao altar,
Sei que a noiva não é tua,
Sei que ela também não é
Do noivo que a possuiu,
Ela não é de ninguém;
Nem é de ti que conheces
Os encantos dessa noiva
Muito melhor que seu noivo.
Coisa alguma te pertence,
Também não és de ninguém,
Viste o mundo do telhado,
Cheiraste o mundo, viraste
O namorado do mundo,
Namorado eternamente:
É melhor ficar assim,
Casar dá muito trabalho,
Põe um número na gente,
Põe um título na gente,
Não se pode mais andar
Desenvolto como antes,
A gente tem que prender
Toda atenção num objeto,
A gente fica pensando
Que é dono dalguma coisa,
Que possui móvel de carne...
Mas eu não sou de ninguém.

Do livro "O visionário"

terça-feira, 16 de junho de 2015

O Último Poema: Manuel Bandeira


Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos                                                                                   intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais                                                                              límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

domingo, 26 de abril de 2015

UM POEMA DE HEINRICH HEINE



A ferro e fogo me marcaram,
    Ferido me deixaram
    Uns tanto por rancor
    Outros por amor.

Veneno no pão derramaram
    E no vinho deitaram
    Uns tanto por amor
    Outros por rancor,

Mas aquela que mais feriu,
    Marcou, sorriu e riu:
    Esta não tem amor,
    Nem, ao menos, rancor.

tradução de Décio Pignatari.



domingo, 8 de março de 2015

POEMA DE OMAR KHAYYÁM




XVII

Olha esta hospedaria, tão degradada!
Quantos Dias e Noites, na mesma portada,
inúmeros sultões - e a pompa - repousaram,
retomando em seguida a Incerteza da Estrada.

De Rubáiyát
tradução de Luiz Antônio Figueiredo

domingo, 7 de dezembro de 2014

A CONVALESCENTE: POEMA DE RILKE






Como a canção que vem e vai na rua,
que chega perto e logo mais decresce,
quase inaudível, alça-se e flutua
e depois outra vez desaparece,

a vida brinca na convalescente,
enquanto débil, em seu leito, mal-
azada, como quem se entrega, ausente,
ela perfaz um gesto inusual.

E é quase sedução o que ela sente
quando a mão rígida, que o fogo obscuro
da febre já incendiou, suavemente,
de longe, como que um toque florescente,
consegue acariciar-lhe o queixo duro.

tradução Augusto de Campos

sábado, 25 de outubro de 2014

Konstantinos Kaváfis





Existem mesmo a Verdade e a Mentira? Ou existem apenas o Novo e o Velho, - sendo a Mentira simplesmente a velhice da Verdade?

16/09/1902
tradução José Paulo Paes

sábado, 30 de agosto de 2014

Um poema de Omar Khayyam


LIII

Se baixas teu olhar, fitando duro o Chão,
ou ergues para o Céu em Sua Imensidão,
lembra que Tu és Tu neste exato Momento,
mas e Amanhã, depois da própria negação?

De Rubáiyát
tradução: Luiz Antônio de Figueiredo

sexta-feira, 11 de julho de 2014

AO PÉ DA PENA: POEMA DE PAULO LEMINSKI




todo sujo de tinta
o escriba volta pra casa
cabeça cheia de frases alheias
frases feitas
letras feias
linhas lindas
a pele queima
as palavras queimadas
formas formigas
todas as palavras da tribo

por elas
trocou a vida
dias luzes madrugadas
hoje
quando volta pra casa 
página em branco e em brasa
asa lá se vai
dá de cara com nada
com tudo dentro
                   sai

Do livro "La vie en close"

sexta-feira, 4 de julho de 2014

POEMA DE ROGEL SAMUEL



despertar paredes brancas
despertar paredes brancas, despertar
brancas folhas de papel dormentes
desviar o curso de um regato na encosta
da floresta que canta a sua canção de vento
entornar um pouco desse copo automático
funcionar minhas molas de rascunho pressionadas
retomar o fio da leitura interrompida
iludir o tempo de marcar esta postagem



Este poema está presente no novo blog de poemas de Rogel Samuel. Para visitá-lo, clique AQUI.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um poema de Bertolt Brecht



Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Trad. Paulo Quintela

segunda-feira, 12 de maio de 2014

NO CIRCO: poema de Antero de Quental






Muito longe daqui, nem eu sei quando,
Nem onde era esse Mundo em que eu vivia...
Mas tão longe... que até dizer podia
Que enquanto lá andei, andei sonhando...

Porque era tudo ali aéreo e brando,
E lúcida a existência amanhecia...
E eu... leve como a luz... até que um dia
Um vento me tomou e vim rolando...

Caí e achei-me, de repente, envolto
Em luta bestial, na arena fera,
Onde um bruto furor bramia solto.

Senti um monstro em mim nascer nessa hora,
E achei-me de improviso feito fera...
- É assim que rujo entre leões agora!

domingo, 6 de abril de 2014

UM POEMA DE ESTÊVÃO RODRIGUES DE CASTRO


Em mim me busco a mim e não me alcanço
Fujo de mim e a mim me vou seguindo,
À fortuna um desejo resistindo
Que caminha soberbo e torna manso.

E, se caso ao que quero os olhos lanço,
Que o lanço é desigual estou sentindo,
Que quem nasceu para morrer pedindo
Até que morra pede (em vão) descanso.

Desejo a liberdade e sou cativo,
Os pés pesados de sentir os ferros
Que, quando se não veem, são mais pesados.

Mas diz razão (se com alguma vivo)
Que há tantos males para tantos erros,
Mores castigos para mais pecados.

Antologia de poesia portuguesa (séc. XVI)