domingo, 1 de maio de 2016

À BAHIA: POEMA DE GREGÓRIO DE MATOS



Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas, nem faladas.
São, ó Bahia, vésperas choradas
De outros que estão por vir estranhos:

Sentimo-nos confusos e teimosos
Pois não damos remédios as já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas
Como que estamos delas desejosos.


Levou-me o dinheiro, a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
macutas, correão, novelos, molhos:


Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que quem o dinheiro nos arranca,
Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos.


quarta-feira, 9 de março de 2016

terça-feira, 1 de março de 2016

EU – MISTÉRIO: POEMA DE AGOSTINHO NETO





Sou um mistério.

Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.

Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.

Dia
dum eu-realidade.

1947

domingo, 31 de janeiro de 2016

EU NÃO SOU EU: POEMA DE JUAN RAMÓN JIMENEZ



EU NÃO SOU EU




Sou este 
Que vai ao meu lado sem que eu veja;
Que, às vezes, vou ver;
Que, às vezes, esqueço.
O que cala, sereno, quando falo,
O que perdoa, doce, quando odeio,
O que passeia por onde não estou,
O que se mantém de pé quando morro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CHÃO DA PELE: SEGUNDO E-LIVRO DE JEFFERSON BESSA


Chão da pele é o segundo e-livro de poesias de Jefferson Bessa. 
CLIQUE NA IMAGEM PARA LER

domingo, 22 de novembro de 2015

UM SONETO AO SONETO: POEMA DE JORGE TUFIC


para Virgílio Maia

O sol dentro de um ovo: este milagre
tomou forma de barco. E já navega
desde Petrarca ao meu jeitão de brega,
mas encontra entre nós quem o consagre.
Neste garimpo, salivando o agre
desamor pelos campos, faca cega,
o construtor de andaimes não sossega
nem troca o vinho pelo bom vinagre.
Bocage empluma os dedos com suas glosas,
Jorge de Lima extrai-se do cansaço
que fizera de ti um caixão de rosas.
Mas és, soneto, ainda o velho laço
que embora preso a leis tão rigorosas,
a tudo nos obriga em curto espaço.

Retirado do blog de Jorge Tufic. Para visitar clique AQUI.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

MONJOLO: poema de Raul Bopp



Monjolo
Chorado do Bate-Pilão



Fazenda velha. Noite e dia
Bate-pilão.

Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão.

Relógio triste o da fazenda.
Bate-pilão.

Negro deita. Negro acorda.
Bate-pilão.

Quebra-se a tarde. Ave-Maria.
Bate-pilão.

Chega a noite. Toda a noite
Bate-pilão.

Quando há velório de negro
Bate-pilão.

Negro levado pra cova
Bate-pilão.