segunda-feira, 27 de junho de 2016

CARTAGO FUI EU: poema de Jorge Tufic



Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou:
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.
Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.
Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.
Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.


( Coral das Abelhas)

domingo, 5 de junho de 2016

À ESPERA DOS BÁRBAROS: POEMA DE KONSTANTINOS KAVÁFIS





O que esperamos na ágora reunidos?

           É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

            É que os bárbaros chegam hoje.
            Que leis hão de fazer os senadores?
            Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

            É que os bárbaros chegam hoje.
            O nosso imperador conta saudar
            o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
            um pergaminho no qual estão escritos
            muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

          É que os bárbaros chegam hoje,
          tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

           É que os bárbaros chegam hoje
           e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

           Porque é já noite, os bárbaros não vêm
           e gente recém-chegada das fronteiras
           diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

tradução José Paulo Paes

domingo, 1 de maio de 2016

À BAHIA: POEMA DE GREGÓRIO DE MATOS



Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas, nem faladas.
São, ó Bahia, vésperas choradas
De outros que estão por vir estranhos:

Sentimo-nos confusos e teimosos
Pois não damos remédios as já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas
Como que estamos delas desejosos.


Levou-me o dinheiro, a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
macutas, correão, novelos, molhos:


Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que quem o dinheiro nos arranca,
Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos.


quarta-feira, 9 de março de 2016

terça-feira, 1 de março de 2016

EU – MISTÉRIO: POEMA DE AGOSTINHO NETO





Sou um mistério.

Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.

Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.

Dia
dum eu-realidade.

1947

domingo, 31 de janeiro de 2016

EU NÃO SOU EU: POEMA DE JUAN RAMÓN JIMENEZ



EU NÃO SOU EU




Sou este 
Que vai ao meu lado sem que eu veja;
Que, às vezes, vou ver;
Que, às vezes, esqueço.
O que cala, sereno, quando falo,
O que perdoa, doce, quando odeio,
O que passeia por onde não estou,
O que se mantém de pé quando morro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

CHÃO DA PELE: SEGUNDO E-LIVRO DE JEFFERSON BESSA


Chão da pele é o segundo e-livro de poesias de Jefferson Bessa. 
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