sexta-feira, 10 de abril de 2009

O cabelo e o mar: um poema de Maria Azenha

Wladyslan Slewinski (Woman Brushing her Hair, 1897)
..
para voltar ao princípio do mundo - poema de Maria Azenha

sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor
..........
sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola
para voltar ao princípio do mundo
..........
com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento
...........
era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte
...........
um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar
...........
e disse: tece-me
...........
e o mar inclinou-se para dentro
para tecer
............
o poema
..........
Para surgir um poema é necessário se despir de ações que embaçam o modo mais simples de tecer um poema-vida. Despir-se de tais ações é cortar os cabelos, pois estes por si mesmos não tecem o poema. Os fios de cabelo fazem esquecer do que propriamente um poema se faz, do que uma vida se faz. Para esse pensamento que se esquece na flor; para esse pensamento que volta o seu coração para uma corola; para esse pensamento que morde o vento, aprisionando-se a um vestido que se recusa a sentir o vento, preciso é levantar-se e cortar o excedente dessas ações.
...
Libertando-se do cabelo é que o feminino encontra a fertilidade do que pode gerar o poema: o mar. Entregar ao mar esses fios é deixar o poema tecer, dizendo ao oceano: “tece-me”. Confiar no mar a atitude de ser com ele o poema revela a mulher que se liberta dos fios que a prendiam para doar ao mundo os fios que se juntam ao mar. União que a tecerá como verdadeira mulher, porque essa é a ação mais simples “para voltar ao princípio do mundo”. (Jefferson Bessa)

3 comentários:

Maria Costa disse...

Belo poema!

E do poema como o vento liberta-se a dança na alma... gostei muitíssimo do seu texto dessa trança de palavras feitas de mel.

mariah disse...

Abraço, Amigo.

obrigada pelas suas leituras.

Jefferson Bessa disse...

Agradeço as palavras lindas e acolhedoras! O poema de Maria por ser tão lindo desperta muitas imagens e sensações.

Um abraço nas duas!
Jefferson.