quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ode do poeta Horácio



I,9

A neve espessa já pesa nos píncaros,
A mata mal suporta o fardo branco:
             Gelam os ribeirões,
             Paralisam-se os córregos.

Ó Taliarca do festim, apague o frio
Com as achas no fogão. Pródigo, verse
De uma ânfora sabina de duas ansas
            Um vinho de quatro anos!

O resto, amigo, entregue aos deuses. Mal
Morram os ventos guerreiros no mar,
            Não chacoalhem ciprestes,
            Nem cabeceiem freixos,

Não queiram saber nada do amanhã:
Credite à sua conta o dia de hoje.
Não se esquive, menino, dos namoros
           E nem das contradanças;

Bem longe os anos velhos, aproveite,
Antes da idade trôpega e grisalha,
           Dos risos abafados
           Nos cantos escondidos,

Quando o dia se vai, da namorada,
E roube dela anéis e braceletes
De amor, depois de uns queixumes, após
          Alguma resistência.

Tradução: Décio Pignatari


segunda-feira, 1 de maio de 2017

ÁGUA FRIA: TERCEIRO LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA



TERCEIRO LIVRO DE POESIA DE JEFFERSON BESSA

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terça-feira, 11 de abril de 2017

POEMA DE WALLY SALOMÃO


: pois a poesia é prévia premonição
                    premência:
antes que algum outro aventureiro lance mão
:
perder o trono
preservar o troar do trovão:
pois brasil é buraco de cárie
                  paiol de banguelas
                             poço cego
                     cacimba de carência:
viver nele é desverterbar sôfregas verdades
                                                          obsoletas
borboletear mentiras com ofegante urgência
:
antes que algum outro aventureiro lance mão:
:
perder o trono
preservar o troar do trovão:

Do livro Tarifa de embarque
2000

quarta-feira, 15 de março de 2017

A QUEIMADA: POEMA DE LÊDO IVO



Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Em Poesia Completa
2004

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

BARULHO: POEMA DE FERREIRA GULLAR




Todo poema é feito de ar
apenas
            a mão do poeta
            não rasga a madeira
            não fere
                         o metal
                         a pedra
            não tinge de azul
            os dedos
            quando escreve manhã
            ou brisa
            ou blusa
                          de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
              tudo
              o que há nele
              é barulho
                          quando rumoreja
                          ao sopro da leitura.

Do livro Barulhos

terça-feira, 22 de novembro de 2016

UM POEMA DE MANOEL DE BARROS



Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou para nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.
Ele falou de sério.
Ficamos instruídos.

Da seção 4 de Canção do ver no livro Poemas Rupestres (2004)