quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um soneto de Pero de Andrade Caminha

Eu cantarei de amor tão novamente,
Se me ouve aquela de quem sempre canto,
Que de mim dor e magoa, e dela espanto
Terá a mais fera, inculta e dura gente.

E ela que assim tão crua e indignamente
Dura aos meus choros é, surda ao meu canto,
Algüa parte crerá (se não for tanto
Como eu desejo) do que esta alma sente.

Mas como esperarei achar piedade
De mim nem em mim mesmo, se ela nega
(Não peço brandos já) duros ouvidos?

Se nega um volver d'olhos, com que cega
A luz, e dá ao escuro claridade,
Como serão meus danos nunca cridos?


do livro: Antologia da Poesia Portuguesa
organização: Sheila Moura Hue

Um comentário:

Nydia Bonetti disse...

Sempre tão bom ler poesia por aqui, Bessa. Que seleção! Bom fim de semana, beijo.