sábado, 12 de fevereiro de 2011

Fim de um crepúsculo: poema de Joaquim Cardozo





Do fim desse crepúsculo a parte da noite caminha,
A parte do dia se isola em vários pontos;
Parece que a luz tem saudade do dia.
A escuridão da noite dividiu-se,
Perdeu a coesão que havia no preto de marfim.
A fragmentação desse crepúsculo,
Em que há muros de negro, o mais denso,
Onde as formas, geométricas tênebras
Entre estratificações mais suaves se entretecem.
Com lineamentos de cinzento cor de pérola.



Nesse fim de crepúsculo ainda restaram
Regiões de clara luz do dia
Que ficarão largadas para as outras eras.





Os ângulos agudos do preto de marfim
Enumeram um tecido bem distribuído.
De onde veio a noite, há terra de sombra queimada
Acompanhando a cor parda de Van Dyck;
A cor parda que ainda resta no Ocidente
E será coberta pelas escuras formas do contorno retilíneo.
Será coberta pelas formas intensas, trevosas.
E fechando esse último trecho em tinta neutra
Resulta a realidade do fim;
Do fim desse crepúsculo.





A manhã começa no Oriente com o nascer do sol.
O crepúsculo se fecha no Ocidente
E o que resta é o brilho das estrelas.


Do livro O interior da matéria.



Pensei em postar um poema mais "conhecido" de Joaquim - a bela Canção elegíaca do livro Signo Estrelado. Mas sempre que seleciono algum poema de Joaquim Cardozo para postar no blog escolho quase sempre algum poema do livro O interior da matéria. Foi o que aconteceu. Este é um livro em que os poemas olham as coisas. Fazem do invisível algo para ser visto. Dizem os traços, a altura, a largura, as cores, o movimento, luzes, sombras, pinturas. E olham para além de um olhar único, para além de um olhar estático. Ao contrário, o movimento presente em cada poema se refaz a cada leitura. O instante num eterno movimento. Desenhando.
(Jefferson Bessa)

5 comentários:

teca disse...

A cada leitura, um novo movimento...
uma grande escolha, poeta!

Beijos e flores, com as cores da felicidade.

R.B.Côvo disse...

Não conhecia. Obrigado pela partilha. Um abraço.

Hilton Valeriano disse...

Um grande poeta que precisa ser mais lembrado! Parabéns, amigo.

Mirze Souza disse...

Jefferson!

Impressionante o início do poema. Ele já parte do fim de um crepúsculo, e continua partindo a noite e o dia. Divide a escuridão da noite e fragmenta em vários tons, o mesmo negro. Em cores e ângulos tudo é começo e fim. "E o que resta é o brilho das estrelas"

Vou procurar esse livro.

Sua colheita como sempre é genial!

Beijos

Mirze

Jefferson Bessa disse...

Mirze, a Nova Aguilar lançou o livro Obras Completas de Joaquim Cardozo no qual poderá encontrar todos esses livros.
Outro poema de Joaquim que sempre releio é "A tarde sobe" já postado no blog. Caso queira ler, só clicar na etiqueta Joaquim Cardozo.
Beijos.
Jefferson.