domingo, 8 de novembro de 2009

O livro Falo: a poesia de Paulo Augusto

Falo de Paulo Augusto é o canto FÁLICO da VOZ do poeta. Mas o FALO se torna também um “EU FALO” – e ambos são a CORAGEM do poeta de cantar a homossexualidade. Mas esta voz libertária, erótica e visceral se espalha e atravessa o país identificando as injustiças com ele (enquanto gay) e com os outros (enquanto coletividade). Dessa maneira é que o livro exibe Ele e o Nordeste (sobretudo) na arena das perseguições da tirania e da violência na sociedade. Entretanto, o livro tem a força de libertar-se dessas amarras, pois se impõe como aguerrido. A força e a alegria do poeta vibram, porque tudo ainda está para ser feito, nada está acabado. Tudo é vivido intensamente, tudo é vivido como um porvir.
O corpo que é amor, delicadeza e erotismo é o mesmo corpo que grita e guerrilha. Momentos como os dos seguintes versos mostram que os ataques e perseguições acontecem porque sabe que é maravilhoso,/ ser fresco/ como um dia de Domingo/ ensolarado e pendurado/ no varal. É o poeta na simplicidade de saber que ser o que é vale a vida.
Versos soltos, livres que explodem numa energia própria de quem quer amar e para tanto está pronto para lutar. Diz: “João, pense no que diz como se morresse”. E dialoga diretamente com os Homens, com a América e com o Mundo Todo.
O livro está disponível no blog Livros Online de Rogel Samuel; para lê-lo clique aqui.
Jefferson Bessa

Dois poemas do livro FALO de Paulo Augusto:

SYSTEM-ATTICA

Porque sou fresco,
hábil, lépido,
a gerontocracia sente medo,
se arrepia como um rato.
Cospe leis, editos, atos.
Se agasalha, modorrenta, rouca,
recua na cadeira de balanço
botando graxa
na dobradiça das pernas.
A tosse, a vista cansada,
a velha despótica me espreita.

Quando exibo meu porte,
meu corte,
me chama de trans
viado me cobra pedágio - a doida
quer me ver casado,
parindo mão-de-obra
para eternizá-la.
Para destruí-la, esterilizo-me.
Minha praxis.
Por puro capricho
me amedronta, me persegue, me degrada.
Nego, renego, faço ouvido mouco.
Se me encontra pela rua
madrugada
quer violentar-me,
ver meus documentos,
me revista e se delicia
apalpando minhas partes,
pensa em coito.
Nego, renego, abomino.
E ficamos eternamente
nessa cachorrada.

Quer me tributar,
me chupar – foder-me
porque sabe que é maravilhoso,
ser fresco
como um dia de Domingo
ensolarado e pendurado
no varal.

POEMA PARA AS MÃOS DE ANTÔNIO

Essa mão que me segura
pelo pescoço,
me sacode e me revista,
essa mão eu amo.

Toda vez que vai ao coldre
leva um beijo meu.

Se atira pedras
e arrebenta vidros,
assusta gente, cidades,
eu gozo - ela é minha.

Nas sombras de minhas colchas
desliza atrevida
em partes que eu não permito.

Silencia, vibra, fala
- abarca tudo que vê,
ambiciosa e chula.

Se peço que pare,
avança - adoro!
Louca, impura, grossa,
entra aonde não deve,
cava, coça, atira e treme,
goza - banha-se
no meu torpor,
vive para acarinhar
meu rosto
e me bater
se grito
quando quer me amar.


2 comentários:

ROGEL SAMUEL disse...

desde que o encontrei num sebo, tornei-me leitor desse livro único e raro em toda a literatura brasileira maldita, livro forte e corajoso

Jefferson Bessa disse...

Sim, impressiona a voz firme de Paulo Augusto.
somos gratos a você, amigo, por tornar disponível esse excelente livro no seu blog "Livros Online".

Um abraço.

Jefferson.