domingo, 17 de julho de 2011

Gazel da fuga: poema de Federico Garcia Lorca


A meu amigo Miguel Pérez Ferrero


Perdi-me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos.

Não há noite em que, ao dar um beijo,
não sinta o sorriso das pessoas sem rosto,
nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido,
olvide as imóveis caveiras de cavalo.

Porque as rosas buscam em frente
uma dura paisagem de osso
e as mãos do homem não têm mais sentido
que imitar as raízes sob a terra.

Como me perco no coração de alguns meninos,
perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando
uma morte de luz que me consuma.

tradução William Agel de Melo

4 comentários:

Luiz Filho de Oliveira disse...

Quão profunda é a poesia desse Lorca gitano! É sempre um prazer lê-lo. Valeu, Jefferson, pela postagem.

Jefferson Bessa disse...

Luiz, bom que gostou da postagem. Não sei por qual motivo, mas não consigo mais deixar nenhum comentário no seu blog. Visito sempre seu blog. Parabéns. Um abraço.
Jefferson.

maria azenha disse...

Adoro Lorca.
Este poema tocou-me tanto...

beijo,

MIRZE disse...

Jefferson!

Um poema que me intrigou pela beleza da escrita, mas gostaria de ter uma análise dele.

"nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido,
olvide as imóveis caveiras de cavalo."

Excelente, as duas faces - vida e morte- numa única imagem poética!

Obrigada e parabéns pela escolha!

Mirze