sábado, 15 de agosto de 2015

CANTO DA POBREZA: POEMA DE MURILO MENDES



Sentas-te à beira da noite
Para fazer este poema,
Este poema não é teu,
É da tinta e do papel.
Mas o que é teu, afinal?
Ideia de propriedade!
Nada é teu, nem de ninguém.
Teu passado não é teu,
Nem sabes o que ele é.
Na neblina do passado
Quase cego tu navegas,
Mas um braço te pegou, 
Te agarra, não larga mais.
- Este braço não é teu. -
O presente não é teu,
Presente já é passado,
Tu falaste, voz sumiu,
Ah! nem o eco ficou.
Mas o futuro? é de Deus,
E Deus não é de ninguém.
Também não és de ninguém.
Tudo vês e tudo tocas,
Tudo cheiras, tudo ouves,
Nada fica nos teus olhos,
Nada fica na tua mão,
No teu ouvido, nariz.
Levaste a noiva ao altar,
Sei que a noiva não é tua,
Sei que ela também não é
Do noivo que a possuiu,
Ela não é de ninguém;
Nem é de ti que conheces
Os encantos dessa noiva
Muito melhor que seu noivo.
Coisa alguma te pertence,
Também não és de ninguém,
Viste o mundo do telhado,
Cheiraste o mundo, viraste
O namorado do mundo,
Namorado eternamente:
É melhor ficar assim,
Casar dá muito trabalho,
Põe um número na gente,
Põe um título na gente,
Não se pode mais andar
Desenvolto como antes,
A gente tem que prender
Toda atenção num objeto,
A gente fica pensando
Que é dono dalguma coisa,
Que possui móvel de carne...
Mas eu não sou de ninguém.

Do livro "O visionário"

Um comentário:

ROGEL SAMUEL disse...

NÃO CONHECIA ESSE POEMA... BRILHANTE...