quarta-feira, 25 de março de 2009

Quem tu foste, Walt Whitman?


Enquanto eu lia o livro, a ilustre biografia,
Então é isto (eu disse) que o autor considera ser a vida de um homem?
E assim, alguém, quando eu estiver morto ou ausente, escreverá minha vida?
(Como se qualquer homem soubesse realmente algo sobre a minha vida,
quando até eu mesmo sempre penso saber pouco ou nada sobre minha vida real,
apenas algumas dicas, umas poucas dicas pálidas e difusas e despistes
que procuro para meu uso próprio na trilha aqui de fora.)
Walt Whitman - Folhas de Relva


Quem tu foste, Walt Whitman? De que modo considerar a tua vida? Para isso não há respostas: tu mesmo pouco ou nada soubeste sobre tua vida real. Estamos fora da pretensão de que uma narração biográfica seja fiel ou real para conhecermos tua vida. Selecionar algumas miudezas de fatos restringiria e empobreceria a vivência do poeta. O retalho biográfico não dá conta da dimensão da vida, que só é vivida por quem vive.
O que se julga vida real não se conhece. Não se determina a vida de um artista por intermédio de um compêndio de fatos ou traços de personalidade. Seria falho, portanto, escrever a vida por registros biográficos, pois da vida (de si e do outro) temos somente “dicas pálidas e difusas”. Não se pode decidir quem somos por notas de definição: os fatos da vida social e individual são insuficientes para determinarmos o Homem. Impossível também definir por um conceito do que é Vida, pois qualquer conceito a reduziria; como acontece também com a definição biológica, cultural ou religiosa da Vida. Qualquer fixação sobre Ela é disparate. Ele foi isso, Eu fui isso: assim diz o pretenso que pensa ser quem é ou o que é realmente.
A construção possível poderia ser pensada da seguinte forma: Eu sou a Vida. A Vida sou Eu. Ou ainda: Whitman foi a Vida; a Vida foi Whitman – sabendo de pouca coisa. A ligação entre uma coisa e outra é como uma seta que vai e volta ao mesmo encontro; mas sempre atento para que não haja desvio para o que está além de nós. Mas, longe de ser uma definição, o que se diz aqui deixa a Vida como o que nós vivemos sem saber.
Outra: como não se escreve a vida alheia, também não se escreve sobre a própria vida. Assim nem mesmo uma autobiografia seria válida. Não se sabe realmente sobre a vida real nem de si nem do outro. O que o poeta procurou, ainda que em traços “pálidos”, foi para uso próprio. Próprio e que ninguém poderá viver ou conhecer - se ele mesmo pouco soube. Estranho é ter conhecimento de biografias sobre Whitman depois desse poema. Desrespeito maior seria ler uma delas. Ninguém sabe dos dias que pertencem somente ao poeta.
(Jefferson Bessa)

2 comentários:

adelaide amorim disse...

Um texto poderoso, Jefferson. Você fala de uma verdade que poucos autores respeitam em suas biografias.
Linkei seu blog, viu?
Abraço.

Jefferson Bessa disse...

oi, Adelaide! Justamente, amiga, resolvi escrever esse texto depois de ver os deslizes das biografias.

Obrigado pela leitura. Vou linkar o seu blog também.
Abraços.