terça-feira, 6 de abril de 2010

O sonho da argila: um poema de Thiago de Mello



O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro - e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
- permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto - em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.

Do livro Narciso Cego

2 comentários:

Mai disse...

Ah! Como eu precisava ler este poeta...E pensar que a poesia deste homem resiste com bravura na amazônia. Coisa mais linda é este poema.
Conheces dele a 'toada de Cambaio'?

abraços

Jefferson Bessa disse...

Oi, Mai. Conheço Toada de Cambaio. Também muito lindo.
Bom que gostou do poema. Não existe bravura maior que a de um belo poema :-)
Abraços.