quinta-feira, 30 de agosto de 2012

POEMA IV DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" DE ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA




Esta tarde a trovoada caiu 
Pelas encostas do céu abaixo 
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta 
Sacode uma toalha de mesa, 
E as migalhas, por caírem todas juntas, 
Fazem algum barulho ao cair, 
A chuva chovia do céu 
E enegreceu os caminhos ... 

Quando os relâmpagos sacudiam o ar 
E abanavam o espaço 
Como uma grande cabeça que diz que não, 
Não sei porquê — eu não tinha medo — 
pus-me a rezar a Santa Bárbara 
Como se eu fosse a velha tia de alguém... 

Ah! é que rezando a Santa Bárbara 
Eu sentia-me ainda mais simples 
Do que julgo que sou... 
Sentia-me familiar e caseiro 
E tendo passado a vida 
Tranqüilamente, como o muro do quintal; 
Tendo idéias e sentimentos por os ter 
Como uma flor tem perfume e cor... 

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara... 
Ah, poder crer em Santa Bárbara! 

(Quem crê que há Santa Bárbara, 
Julgará que ela é gente e visível 
Ou que julgará dela?) 

(Que artifício! Que sabem 
As flores, as árvores, os rebanhos, 
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore, 
Se pensasse, nunca podia 
Construir santos nem anjos... 
Poderia julgar que o sol 
É Deus, e que a trovoada 
É uma quantidade de gente 
Zangada por cima de nós ... 
Ali, como os mais simples dos homens 
São doentes e confusos e estúpidos 
Ao pé da clara simplicidade 
E saúde em existir 
Das árvores e das plantas!) 

E eu, pensando em tudo isto, 
Fiquei outra vez menos feliz... 
Fiquei sombrio e adoecido e soturno 
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça 
E nem sequer de noite chega...

Um comentário:

Mirze Albuquerque disse...

BELÍSSIMO!

O que um poeta faz com uma simples trovoada. Os altos voos e o clamor à Santa Bárbara fizeram deste poema uma obra de arte. Clássica.

Obrigada Jefferson!

Beijos

Mirze