terça-feira, 5 de abril de 2011

O Chamado: um poema de Carlos Drummond de Andrade



Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.

Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.

E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?

A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.

E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.

Do livro Claro Enigma

2 comentários:

Raíz disse...

Esse é o meu Drummond!

Claro, solene e simples ao mesmo tempo. Enigmático, mas um excelente poeta e homem que tive o prazer de conhecer.

MUITO BOM!

Beijos, Jefferson!

Mirze

Luiz Filho de Oliveira disse...

Ah, como o Carlos comove a gente! Eita poeta federal, esse!
Boa escolha, Jefferson, de escol!