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domingo, 24 de julho de 2016

POEMA DE ALBERTO CAEIRO




XXXIII

Pobres das flores nos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...


Do livro "O guardador de rebanhos"



domingo, 2 de junho de 2013

"ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE": POEMA DE ALBERTO CAEIRO



Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente [brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da [minha mesa 
Abafa toda a existência da terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da [boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou [significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
E esta sensação é curiosa porque ele não enche a noite
Com a sua pequenez.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

POEMA IV DE "O GUARDADOR DE REBANHOS" DE ALBERTO CAEIRO/FERNANDO PESSOA




Esta tarde a trovoada caiu 
Pelas encostas do céu abaixo 
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta 
Sacode uma toalha de mesa, 
E as migalhas, por caírem todas juntas, 
Fazem algum barulho ao cair, 
A chuva chovia do céu 
E enegreceu os caminhos ... 

Quando os relâmpagos sacudiam o ar 
E abanavam o espaço 
Como uma grande cabeça que diz que não, 
Não sei porquê — eu não tinha medo — 
pus-me a rezar a Santa Bárbara 
Como se eu fosse a velha tia de alguém... 

Ah! é que rezando a Santa Bárbara 
Eu sentia-me ainda mais simples 
Do que julgo que sou... 
Sentia-me familiar e caseiro 
E tendo passado a vida 
Tranqüilamente, como o muro do quintal; 
Tendo idéias e sentimentos por os ter 
Como uma flor tem perfume e cor... 

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara... 
Ah, poder crer em Santa Bárbara! 

(Quem crê que há Santa Bárbara, 
Julgará que ela é gente e visível 
Ou que julgará dela?) 

(Que artifício! Que sabem 
As flores, as árvores, os rebanhos, 
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore, 
Se pensasse, nunca podia 
Construir santos nem anjos... 
Poderia julgar que o sol 
É Deus, e que a trovoada 
É uma quantidade de gente 
Zangada por cima de nós ... 
Ali, como os mais simples dos homens 
São doentes e confusos e estúpidos 
Ao pé da clara simplicidade 
E saúde em existir 
Das árvores e das plantas!) 

E eu, pensando em tudo isto, 
Fiquei outra vez menos feliz... 
Fiquei sombrio e adoecido e soturno 
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça 
E nem sequer de noite chega...

quinta-feira, 29 de março de 2012

POEMA III DE O PASTOR AMOROSO DE ALBERTO CAEIRO-FERNANDO PESSOA




Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Alberto Caeiro: Ontem à tarde

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.

E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.



(Mas eu mal o estava ouvindo
que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)



Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.



(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.


E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?