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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Nada que É: um poema de João Cabral de Melo Neto


Um canavial tem a extensão
ante a qual todo metro é vão.

Tem o escancarado do mar
que existe para desafiar

que números e seus afins
possam prendê-lo nos seus sins.

Ante um canavial a medida
métrica é de todo esquecida,

porque embora todo povoado
povoa-o o pleno anonimato

que dá esse efeito singular:
de um nada prenhe como um mar.
do livro Agrestes.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

MENINO: um poema de Joan Teixidor


Todos os jardins se fizeram para ti
e as flores, as pedras.
Não tentes saber mais, contempla
a luz pendurada na árvore.

Quando grande, não te lembrarás
desta paz divina.
Mas uma obscura saudade haverá no desejo
do que agora te sobra.

*tradução João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Canção: poema de Rosa Leveroni

Mil auroras acendeu
o ardente grito da chama.
Dez mil estrelas nos deu
o pranto sutil do orvalho.
Punha o perfume carmim
na alma desta rosa branca
e uma cerva pela fonte
buscava o espelho de prata.
Percebi uma canção
e não sei quem a cantava:
entre suspiros e ramos,
como de longe, chegava,
dizendo bem docemente:
Ai da triste enamorada!...

tradução João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Louvação do Barro: um poema de Mariano Manent

Cantarei o barro, porque nele esteve a vida
e este sangue que ferve em nosso corpo.
Meus olhos de barro pressentem o repouso
e o clarão imortal de uma outra vida.

Cantarei o barro porque foi amassada
a nossa carne do barro inconsistente
e na argila curtida e inanimada
o sopro de Deus entrou como a semente.

tradução: João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Ao vento de outono – Joan Vinyoli



Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de uma vez a casca
do fruto que não madura.


Tradução João Cabral de Melo Neto.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Dúvidas apócrifas de Marianne Moore - João Cabral de Melo Neto


Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?

Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso,
e sempre impudor?

A coisa de que se falar
Até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo
Impuramente, a quem dela quer falar?

Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?