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sexta-feira, 9 de março de 2012

"Palavras que o legislador hebreu": UM SONETO DE GEIR CAMPOS:


Palavras que o legislador hebreu
lavrou no seu altíssimo serviço
- "não cobiçarás" - e ao relê-las, eu
cerro as tábuas da lei e penso nisso:


cobiçá-la...Mas eu não a cobiço,
é um sentimento diferente o meu
e não foi contra mim que escreveu isso
quem visando a cobiça o escreveu.


Fosse o preceito, em vez, "não amarás"
e eu, conhecendo-o, não teria paz
na condição que ostento de amador


impenitente; mas a lei não diz
que seja a alguém vedado ser feliz
com outrem partilhando tanto amor.


*retirado da revista "Encontros com a civilização brasileira", número 17.

sábado, 7 de janeiro de 2012

UM SONETO DE GEIR CAMPOS


Talvez não venham a saber jamais
quanto de mim em ti carregas quando
vais ter com ela e fico só pensando
no que costuma haver entre os casais:

em pensamento vou a quanto vais
e quando a olhas eu a estou olhando
e quando a tocas eu a estou tocando
e teus genitais são meus genitais...

Quando chegas alfim de estar com ela
vejo teus olhos e ouço os olhos dela
dizendo coisas que ela a mim não diz:

vens leve e é também minha essa leveza
- e a alegria que em mim acham acesa
é mais um jeito meu de ser feliz.


*soneto presente na revista "Encontros com a civilização brasileira" número 17. Segundo a revista, os sonetos de Geir Campos publicados estavam no prelo e seriam lançados no livro "Tarefa e Cantar de Amigo".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

o poema TAREFA de Geir Campos


Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas imutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
- do amargo e injusto e falso por mudar -
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
do livro Canto Claro.

domingo, 19 de setembro de 2010

Elegia: um poema de Geir Campos


Quando se evolará da argila o sopro
que me faculta o gesto leviano?
Se um deus mo prometeu, outro mais alto
o aniquilou sob um destino humano.
Mais grave que a vaidade relativa
de ser estátua e ser máquina viva,
já pesa em mim o exílio dos espaços
chumbando os membros cada vez mais lassos:
a máxima viagem fora aquela
que devolvesse à terra a carne morna,
para eu fundir meu encontro maior na
sua frieza e reintegrar-me nela.
Do livro Arquipélago

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Pião: poema de Geir Campos


Quem te ensinou, pião, a simples arte
de girar e fazer do giro a vida,
vertical sobre o bico - único ponto
de teu corpo, no chão, a suportar-te?
Essa a tua verdade essencial:
como um homem cercado de mentiras,
buscas talvez em torno uma saída
que não achas; e assim debalde giras
num equilíbrio falso, que afinal
se rompe... e ao chão te entregas, todo, tonto.

Do livro Rosa dos Rumos.